quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
Património Cisterciense. O Colmeal e a arte do mel
Os cistercienses desenvolveram a apicultura nas suas granjas. A partir da segunda metade do século XVIII, a criação de abelhas conheceu um novo fulgor. Frei Nuno Leitão, Geral da Ordem em 1765, manda levantar o colmeal da Granja de Val de Ventos (Turquel) e, por seu turno, a administração do Santíssimo Sacramento adquire um covão de abelhas na Moita, nas imediações da Granja do Campo, no Valado (esta granja já dispunha de um colmeal na Torre). Graças a esta actividade, abundava o doce mel de tão grande utilidade na alimentação (sobretudo na doçaria), nas bebidas fermentadas, na arte terapêutica e a cera com que se alumiava os altares dos Santos, as procissões da Candelária (2 de Fevereiro) e mesmo as habitações. As abelhas ainda contribuíam para a polinização das fruteiras e demais culturas, criando condições favoráveis a uma abastança de frutos.
Os covões (conjuntos de cortiços ou colmeias) estavam concentrados na área serrana dos coutos, embora também se fomentasse a apicultura nas terras de campo. Frei Manuel de Figueiredo elucida-nos que “há alguns cortiços de abelhas pelos fundos da Serra de Albardos, que produzem o melhor mel deste reino. Também no Camarção (Pataias) e terras de Alcobaça há maiores números de abelhas que produzem mel mais parco”. A geografia apícola coincidia, grosso modo, com as áreas de pastoreio.
Para proteger os cortiços levantavam-se muros apiários. Estas edificações resguardavam os cortiços de predadores como o texugo, a doninha, sapos, cobras e lagartos; abrigavam-nos dos ventos frios; da acção letal dos fogos. A dedicação dos monges a estes insectos laboriosos evidencia-se no extremo cuidado com que deles tratavam. O levantamento de um colmeal pedia uma orientação adequada de forma a evitar os ventos de Norte, Noroeste e Nordeste. Para além desta cautela, separava-se o murado do colmeal da envolvente de mato ou floresta por meio de um valado amplo, com a função de corta fogos. Os cortiços eram devidamente cobertos por telhões.
Os covões tinham guarda destacado. Este homem, para além da vigilância, encarregava-se da cresta, da enxameação, de limpar as colmeias, manter o valado. A receita utilizada para aumentar os enxames nos covões consistia em crestar os cortiços, com um intervalo, de dois em dois anos. Este sacrifício temporário da produção assegurava enxames numerosos e saudáveis. A cresta efectuava-se, por regra, durante o mês de Junho. Para ajudar os enxames a resistir ao Inverno, colocavam-se, nas imediações dos cortiços, tigelas com castanhas piladas cozidas.
O mel da Serra era o mais claro que se produzia em Portugal. Para o conservarem acondicionavam-no em bilhas de barro A receita das colmeias compensava largamente as despesas. O covão da Moita, no ano de 1777, rendeu 12.000 réis em mel, aproximadamente 7% do seu preço de custo (a sua aquisição foi feita por 82.500 réis).
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| Colmeal de Val Ventos |
O colmeal de Val Ventos constituía a maior instalação apícola cisterciense. O muro apiário, com cerca de 20m de largura por 20m de comprimento e 2m de altura, estava situado numa encosta virada para o nascente, alojando-se os cortiços nos vários patamares servidos por escadarias laterais. Este colmeal, que J. Vieira Natividade observou na década de 20, possuía “83 colmeias – 70 cortiços e 13 colmeias móveis”.
Autor: António Maduro
Património Cisterciense – As Frutas de Alcobaça
Os monges cistercienses acarinharam a fruticultura. O profundo amor com que tratavam os seus pomares de laranjeiras doces e pessegueiros explica que para os designarem utilizassem a singela expressão de “jardim”, numa clara alusão ao paraíso celestial. A exploração agrícola das Granjas monásticas reservava um espaço para as árvores de fruto. Mesmo nas granjas de solos mais inóspitos, privados de águas de nascente e cravejados de pedra, as fruteiras marcavam posição.
A diversidade de árvores frutíferas repartia-se entre os pomares de espinho, caroço e pevide. Na resposta à questão sobre qual a qualidade dos pomares e a diversidade das árvores de fruta, Frei Manuel de Figueiredo testemunha-nos a sua inusitada riqueza: “Os Pomares constão de frutas chamadas de caroços principiando pelas primeiras frutas de cereijas, ginjas, alvoricoques, damascos [os “ovos do sol” dos Persas], athe as maçans, e peros de Inverno [frutas de pevide] que são mais raras, ainda que crião arvores de bastante corpo [e nos de espinho] laranjeiras doces, e agras, limeiras, cidreiras, limoeiros que dão limoens grandes e gallegos”.
Outros autores pronunciam-se sobre as fruteiras de Alcobaça. D. António Macedo fala do renome que conquistaram as laranjas de Alcobaça e as melancias de Pataias. Também João Maria Baptista, narra que chega “a todo o reino a fama dos bellos peros e camoezas e que os seus delicados pecegos egualmente merecem”.
Segundo Beckford no seu diário de viagem “Alcobaça e Batalha”, as primeiras laranjeiras da China que tinham vindo para Portugal foram plantadas no claustro de D. Dinis. O cultivo dos citrinos floresceu nas terras de Alcobaça. No relatório da Sociedade Agrícola do distrito de Leiria (1856) menciona-se que os pomares de espinho apenas existem nos concelhos de Alcobaça, Caldas da Rainha e no lugar da Barreira (Leiria) e que as espécies cultivadas são as laranjas da China, o limão acre e doce, a cidra, a lima, a laranja lima e a tangerina. Fazendo fé nas declarações de produção dos concelhos que integram o distrito de Leiria, no ano de 1865 Alcobaça contribuiu com 99% dos citrinos. A colheita da laranja ultrapassou os 806 milheiros e a dos limões alcançou os 50 milheiros.
Quanto às pereiras, J. B. de Castro informa-nos sobre as castas e designações populares. Temos então as “de rei, de conde, bergamotas, bojardas, carvalhaes, conforto, flamengas, gervasias, codornos, engonxo, S. Bento, bom cristão, virgulozas, lambe-lhe os dedos (…) ”. Iria Gonçalves recupera diversas qualidades de peros, nomeadamente os de Santiago, brancos, marmelares, e as maçãs baionesas, que pela sua excelência os monges elegiam nos foros.
As fontes do século XVIII dão conta da maçã leirioa (nomeadamente nas terras da Vestiaria), das deliciosas e aromáticas camoesas. Já o Relatório da Sociedade Agrícola do distrito de Leiria, que atribui ao concelho de Alcobaça o domínio incontestado dos pomares de pevide, ao pronunciar-se sobre as qualidades das maçãs, refere que nas temporãs “cultiva-se a leiriôa, a cerigal e outras. Das serôdias temos a olandeza, páu preto, bemposta, raineta, parda e vermelha.
O comércio dos frutos constituía uma mais-valia económica das terras de Alcobaça. A expedição dos frutos era feita por contratadores tendo como destinos preferenciais os mercados de Lisboa e das comarcas vizinhas. As frutas eram despachadas através da barra de S. Martinho. A importância deste porto na exportação das frutas explica que os afamados peros recebessem a designação do cais de embarque. Segundo J. Vieira Natividade, só no ano de 1854 foram exportadas 251 carradas de fruta verde (maçãs). Enquanto as laranjas e os limões tinham como destino a Inglaterra e o Brasil, as maçãs eram conduzidas para o Algarve e norte de África. Os concelhos vizinhos de Caldas da Rainha e Nazaré absorviam parte da produção, embora também se fornecessem os mercados de Lisboa, Santarém e Vila Franca.
A indústria da seca de frutos foi também bastante desenvolvida no território dos coutos, ganhando notoriedade os ramais de maçãs camoesas, as peras aparadas, as passas de ameixa. Entre as peras passavam-se as variedades almíscar, carvalhal, calvário e pé curto, nas ameixas destacam-se as caragoçanas, a branca de passar, a doçarina, a rainha-cláudia. Nos pêssegos a variedade molar. Também as uvas se penduram no barrotado da frutaria e os figos se dispõem nos balaios ao sol.
Eram populares os ramais de maçãs que se transaccionavam nas feiras e mercados da região e se exportavam para Santarém e Vila Franca. Estes frutos mirrados e doces eram ofertados às crianças pelo pão por Deus e serviam de mimo para os velhos e doentes.
António Maduro
Património cisterciense. Os Moinhos do Mosteiro de Alcobaça
A difusão do engenho de água teve nos cistercienses parte interessada. Os “monges agrónomos” souberam, de facto, aproveitar o motor hidráulico e explorar os seus usos, aplicando-o nas suas granjas na moagem dos cereais, mas também para derreter a azeitona, na moenda de casca para curtumes, para fabricar a mostarda, em pisões e fulões, na serração de madeiras, nas ferrarias.
As unidades de moagem hidráulica afectas aos domínios senhoriais destacam-se pela localização, tipo de estrutura e pelo número de “engenhos correntes e moentes”. De preferência, tomam assentamento nos rios de caudal permanente, escolhendo, estrategicamente, as quedas de água para ampliar a força motriz. São servidas por um açude de pedra que não só aprovisiona a água como constitui uma guarda contra cheias. Os imóveis são de pedra crua, com ou sem reboco, e a cobertura de telha. Raramente dispõem de menos de três pedras.
Para moer diariamente o grão contava-se com a energia das águas e dos ventos. No território dos coutos, os engenhos tocados a água, (falamos dos moinhos de rodízio e azenhas), tomavam a parte de leão na nobre tarefa de reduzir o cereal a farinha. Os moinhos de vento assumiam uma posição secundária, cabendo-lhes, sobretudo, o papel de substitutos das pedras que o estio, ao fragilizar as correntes, inibia para a moenda.
Era no rio Alcoa, nomeadamente entre a nascente e as quedas de água da Fervença, que estavam instaladas as principais casas de moinhos do Mosteiro. A saber, o conjunto da granja de Chiqueda com seu lagar de azeite e moinho (mais tarde conhecido por moinho Constitucional), depois da ponte de pedra, a jusante dos olhos de água em Chiqueda de Cima; o moinho das Freiras de Cós, junto à ponte das Freiras em Chiqueda de Baixo; o moinho do Mosteiro ou da Cerca de Dentro; o moinho da Praça, junto à ponte da Praça; e, finalmente, o complexo da Fervença (Maiorga) com os seus três moinhos e lagar de azeite.
Em média, estes moinhos dispunham de três a quatro casais de mós (quando o número é par, vemos duas alveiras ou trigueiras e outras duas segundeiras para derreter o milho, o centeio e, por vezes, também a cevada), com a excepção notável do moinho da Praça que revolucionava oito pedras.
Com a extinção da Ordem e a venda dos bens em hasta pública verifica-se a transferência destas unidades de produção para as mãos de alguns notáveis locais. De entre os novos proprietários sobressai Bernardo Pereira de Sousa que adquire os conjuntos de Chiqueda e da Fervença, o que lhe concede uma posição dominante na moagem de cereais e produção de azeite.
Assiste-se a uma tendência para reformar as unidades de maior capacidade. Os investimentos canalizam-se quer para obras nos açudes e reforço dos engenhos de rodízio (de uma a duas pedras), quer para a substituição integral do aparelho motor, transformando o moinho de água numa azenha. A par deste fenómeno dá-se a democratização da moagem, multiplicando os engenhos no viso dos montes e no leito das ribeiras e concedendo por fim ao moleiro o estatuto de proprietário. António Valério Maduro
Património Cisterciense. Os Lagares de Azeite do Mosteiro de Alcobaça
Para desfazer a azeitona das propriedades monásticas, do direito do quinto e da dízima, assim como todos os frutos das comunidades camponesa, os cistercienses mandaram assentar uma cadeia de lagares, mais ou menos reforçada consoante a densidade do povoamento desta fruteira. Ao contrário do que sucedia com os sistemas de moagem, os lagares de azeite eram explorados directamente pelo instituto monástico. O mundo camponês era o principal atingido pela manutenção do regime de monopólio. José de Abreu Chichorro na sua “Memória Económica e Política da Província da Estremadura” imputava os males do azeite a este exclusivo dos donatários.
A lagaragem tinha início no mês de Dezembro. Nos anos de produção mesquinha a lavra do azeite durava entre mês e meio a dois meses, contra três a quatro meses e meio em épocas de abastança.
Estrategicamente, as “fábricas de azeite” instalavam-se à beira dos cursos de água, acoplando-se aos engenhos de farinação, pisões e outras indústrias. Por regra, os moleiros viam ser reduzido o quantitativo da renda, dado os moinhos de azeite sonegarem água às pedras de fazer pão. Mas a inconstância dos cursos de água que atravessavam o território dos coutos obrigava a que a maior parte das unidades de motor hidráulico estivesse, igualmente, apetrechada de moinhos tocados a sangue (caso do lagar das Antas, da Laje, da Granja de Chiqueda). Parte dos lagares que estavam adstritos ao olival do pé da Serra dos Candeeiros apenas podiam contar com o gado de canga para derreter a azeitona (tal era o caso do lagar da Cerca, da Quinta da Granja, de Val Ventos, da Lagoa Ereira). As maiores instalações estavam apetrechadas com 8 prensas de vara e 2 moinhos, estão entre elas o lagar da Cerca (Ataíja de Cima), o lagar da Lagoa Ereira (Casal da Lagoa, Turquel), e o lagar da Fervença (complexo de transformação que englobava, para além do lagar, dois moinhos de rodízio e uma azenha).
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| Casa do Monge Lagareiro - Ataíja de Cima |
O espírito de modernidade tecnológica que movia os cistercienses verifica-se nas instalações de lagar e casa do monge lagareiro da Ataíja de Cima (que laborava as safras do olival do Santíssimo Sacramento das Ataíjas). Neste imóvel estabelecia-se a separação entre a área dedicada aos moinhos e às prensas. Este lagar possuía ainda palheiros e estábulos para os animais que serviam nos engenhos e carreavam a azeitona. Mas estas condições ideais para a época eram, de facto, uma excepção. A regra que prevaleceu ao longo do século XIX, na região e no país, juntava no mesmo espaço prensas e moinhos, com os inconvenientes da promiscuidade do gado junto às tulhas da azeitona e às pias e talhas de arrecadar o azeite.
Para a laboração das instalações de maior capacidade contava-se em permanência com cinco a seis lagareiros. Ao mestre cumpria a orientação e coordenação dos afazeres da moenda e prensagem. Ele próprio se encarregava das funções reputadas de maior exigência e responsabilidade, como o assentamento, sangria e estrangulamento das tarefas, de arrancar o azeite e fazer as maquias (a dízima do azeite laborado), de precisar a moedura de partes (azeitona do rabisco e dos pequenos proprietários), de vigiar o enceiramento, caldas e prensagem… Já os moedores, como o seu nome indica, serviam o moinho, montavam o enceiradoiro, assistiam o fogo da caldeira, entre tantas outras actividades.
Com a extinção das ordens religiosas masculinas, estes meios de transformação da colecta dos olivais (à semelhança do que já vimos com os sistemas de moagem) são, estrategicamente, adquiridos por alguns influentes locais. O notável Bernardo Pereira de Sousa concentra nas suas mãos o lagar da Quinta de Chiqueda, o lagar da Fervença (Maiorga) e o lagar das Antas (Évora de Alcobaça). As três unidades dispunham de motor hidráulico e contavam, no seu total, com 22 prensas de vara, cerca de 30% da capacidade extractiva dos lagares do Mosteiro.
Autor: António Maduro
quarta-feira, 6 de julho de 2011
O Conjunto de Fornos de Cal de Pataias
A indústria artesanal da cal nos antigos Coutos de Alcobaça concentrava-se na beirada da Serra dos Candeeiros. É neste espaço que, no século XVIII, encontramos a maioria das referências aos fornos do Mosteiro. Por meados do século XIX, a falta de matos utilizados como combustível na cozedura da pedra, levou ao encerramento dos fornos de cal parda ou magra da charneca serrana, propiciando a transferência desta actividade para Pataias.
A colonização do espaço, incentivado pela plantação de vastas áreas de olival nas faldas desta Serra, ao longo do século XVIII, conduziu a arroteias extensivas da mata primitiva. Também a vaga de tomadias populares verificadas nas terras da encosta, durante o século XIX e a primeira metade do século XX, estacando tanchoeiras entre as penas e fragas, contribuíram para a supressão do coberto vegetal de carvalhos, carrascos e medronheiros... Aliás, o cronista do Mosteiro, Frei Manuel de Figueiredo (século XVIII), já alertava para o prejuízo que a ocupação excessiva do solo acabava por trazer à agricultura, ao escassearem terras de pasto e matos. De facto, a acção combinada da pastorícia e do corte de matos para a arte agrícola e combustível condenaram a sobrevivência deste ofício neste espaço geográfico.
Segundo os registos de contribuição industrial de 1881, Pataias era o único centro de produção de cal do Concelho, com treze fornos em funcionamento. Esta localidade possui veios de pedra de excelente qualidade, matos em abundância nas terras de pinhal, factores que não só justificam a instalação da indústria, como explicam o seu desenvolvimento ao longo das primeiras três décadas do século XX. A passagem do caminho-de-ferro (linha do Oeste) em Pataias, no ano de 1888, e a posterior construção do apeadeiro contribuíram para a expansão desta actividade. Era este transporte que assegurava o abastecimento de cal à Siderurgia Nacional, indispensável na produção do aço.
Em 1933 estão arrolados 33 fornos em actividade. O número de fornos em laboração veio gradualmente diminuir. Em 1942 encontramos 25 fornos, oito anos volvidos apenas 17 mantêm este ofício tradicional. Já no ano de 1982 só 5 fornos ainda trabalham, chegando o seu ocaso no ano de 1995, quando o senhor António Grilo coze a última fornada. As famílias que ao longo de mais de um século tomaram nas suas mãos este ofício sazonal foram forçadas, paulatinamente, a largar este mester.
Muitas são as explicações para o abandono desta arte milenar. Em primeiro lugar, o carácter artesanal deste ofício que pouco ou nada se modernizou. Por outro lado, a falta de mão-de-obra (este ofício beneficiava da força de trabalho das proles numerosas, assim como de alguns tempos mortos do calendário agrícola), motivada pela instalação das indústrias cimenteiras, vidreiras e cerâmicas na região, que permitiram um pleno emprego e estimularam a deslocação de activos da agricultura para a indústria. A dureza das condições de trabalho (18 horas seguidas a alimentar o forno com 6 magras horas de descanso num canto do barracão) não constituía aliciante para os mais novos. As exigências de jornas mais elevadas vieram a tornar-se verdadeiramente incompatíveis com a capacidade produtiva e a rentabilidade das fornadas. Por outro lado, as empresas que adquiriam grandes proporções de cal, passaram a instalar fornos eléctricos destinados à sua produção.
Actualmente sobrevivem no seio do parque florestal 29 fornos de cal desactivados, conjunto que, pelo bom estado geral de conservação, merecia uma rápida intervenção que dignificasse e preservasse este espaço de produção e memória.
Com o encerramento dos fornos, a regular limpeza dos pinhais deixou de ser feita, pelo que o culminar desta actividade teve um impacto negativo nas culturas florestais e sua exploração pela mais fácil propagação de fogos.
A tecnologia de produção da cal não terá conhecido grandes modificações do período romano aos nossos dias.
Estes fornos de estrutura barriloíde arvoravam as suas paredes com tijolos ligados por um barro areento. O seu topo aberto apresenta-se ligeiramente estrangulado em relação à base afundada no terreno. A altura destes fornos situa-se entre os 4,5 m e os 6m, a largura da base entre os 3,70 m e os 4,60 m e o topo entre 3,15m e 4,10 m. Para resistir à pressão da cozedura os fornos apresentam-se parcialmente aterrados. Com esta mesma finalidade a parede é travada por cima do portal com três troncos de pinheiro.
A laboração destes fornos é de tipo descontínuo ou intermitente, necessitando de um abastecimento regular de mato à caldeira até finalizar a cozedura, ao contrário do que sucede nos fornos de laboração contínua ou permanente em que as camadas de lenha ou carvão alternam com as camadas de pedra. Como combustível utilizava-se preferencialmente o mato, daí denominarem estes fornos de fornos “de cal a mato”. Para uma fornada eram necessários entre 80 a 100 carradas de mato. Com a adaptação aos carros de bois de eixos de ferro e rodados de camioneta, por volta dos anos 50, reduziram-se os fretes a 50 ou 60 carradas. Os carros podiam agora vir mais carregados sem o risco de se atolarem nas areias do pinhal. Com a substituição da tracção animal pela tracção mecânica, apenas 10 fretes de camioneta eram suficientes.
A partir da década de 40 recorre-se, igualmente, ao “motano” (molhos de braça de pinho). Graças ao “motano” os fornos começaram a laborar durante o Inverno. Cada fornada consumia entre 150 a 200 talhas de “motano”, equivalendo 1 talha a 60 molhos. Posteriormente utiliza-se a serradura e mesmo pneus velhos para alimentar a caldeira. A temperatura em que se processava a cozedura da pedra é denominada de rubro cerejo, situando-se entre os 800º e os 1000º.
O “empedre” do forno consumia aproximadamente 150 carradas de pedra, extraída pelos cabouqueiros. Os fornos, por uma questão de economia, localizam-se nas imediações das áreas de extracção. Cada fornada levava em média três semanas. Uma para enfornar (levantar o “empedre”), outra para cozer a pedra e outra para a retirar.
Principiava-se pelo “empedre”, assentando as “armadeiras” sobre o peal que rodeava a caldeira. Quando o “empedre” atingia a altura do portal as pedras começavam a ser descarregadas pela abertura superior. Sobre as “armadeiras” (pedras que chegavam a atingir 1 m de comprimento) destinadas a estruturar a abóbada, depositavam-se as “carregadouras” (pedra miúda). O “capelo”, final do “empedre”, excedia em cerca de 1,50 m o topo do forno.
A combustão rápida do mato exigia ao forneiro carregar constantemente a caldeira por intermédio da boca do forno. Quando a cinza se acumulava, tornando o fogo mortiço, o forneiro, com o “varredoiro” (pinheiro) ao ombro, remexia o brasido. Com outro pinheiro de menor porte, o “acabador”, retirava-se a cinza que se acumulava nos cantos. Finda esta tarefa, que durava cerca de meia-hora, podia-se, novamente, alimentar a fornalha, impedindo assim que a pedra pudesse encruar. A utilização de compressores prescindiu deste esgotante trabalho.
No final da cozedura, o “capelo” do “empedre” baixava cerca de meio-metro em relação ao topo do forno. Como nos refere o mestre Joaquim Ribeiro bastava olhar para a pedra para saber se ela estava convenientemente cozida. Era então chegada a altura de desenfornar a pedra, tarefa árdua dada a temperatura que o forno mantinha. Em média cada fornada rendia entre 50 a 55 toneladas de cal. Sabemos que antes da utilização do “motano” como combustível e do recurso ao transporte mecanizado das paveias de mato e da pedra das caboucas, os fornos não coziam mais do que três a quatro fornadas por ano, passando, posteriormente, a poder realizar mais de dez fornadas.
A cal era comercializada à boca do forno. Caso os compradores tardassem a pedra consumia-se, pois não existia nenhum espaço destinado ao armazenamento. Só a partir da década de 50 é que se edificam armazéns para guardar a cal, acondicionando-se esta em tulhas de tijolo, com uma capacidade de cerca três toneladas. Inicialmente em galeras, nos seirões e cangalhas dos burros e, mais tarde, nas camionetas escoava-se a cal em pedra e em pó. Nas feiras e nos mercados a vendedeira da cal marcava sempre presença. No tempo da Páscoa o costume de caiar a habitação e alguns cómodos (adega, casa das tulhas e pias, cisterna...) antes da visita do pároco, levava a um aumento da procura e logo à subida do preço deste produto. Este uso não tinha apenas um objectivo estético, cabendo à cal assegurar a impermeabilização dos imóveis, assim como os resguardar dos calores estivais. Ao matar a cal na pia acrescentava-se um fio de azeite, o que impedia não só que a cal sujasse os fatos domingueiros, como ajudava a conservar melhor as paredes.
A cal gorda de Pataias era procurada para o fabrico de argamassas, estuques, cal de caiar e para uma ampla utilização nas terras de cultura.
Texto: António Valério Maduro
Fotografias: Mariana Coutinho - 9º E
segunda-feira, 25 de abril de 2011
O FABRICO DE SEIRAS NO JUNCAL
1. BREVES CONSIDERAÇÕES HISTÓRICAS
Juncal é sinónimo de junqueiro, local onde há junco. De facto, ainda hoje é possível encontrar no Juncal zonas onde o junco cresce espontaneamente, em grande quantidade. Apesar disso, só após 1948 é que o fabrico artesanal de produtos com junco surgiu no Juncal. Até essa data essa actividade estava localizada na Castanheira. Existem informações que mostram que também se produziam artefactos em junco pelo menos no Ribatejo e Alentejo. Pelo contrário, não existem dados seguros acerca da data nem do modo de início da produção na Castanheira.
Até 1943/44, apenas se faziam carpetes, passadeiras e esteiras para a praia. Nessa data veio para a Castanheira uma família de Lisboa (os “Manecas”), de propósito para ensinar os produtores locais a fazer SEIRAS.
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| Passadeiras |
Em 1948/49 Rafael Henriques Sousa, que já era produtor na Castanheira, mudou-se para o Juncal. Veio com a família e arrendou um espaço para habitação e outro para produção de Seiras, na Rua da Fonte (onde é hoje a casa de Francisco Pinheiro). A esposa Florinda da Conceição e a irmã Francisca (“Sica”), começaram entretanto a ensinar a técnica de tecer a outras mulheres, que se mostravam interessadas, por exemplo a D. Hortense e a D. Celeste Borges.
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| Passadeiras |
Esta actividade tornou-se num complemento económico para as famílias. Muitas raparigas logo que saíam da escola, com 10 ou 12 anos, iam aprender a tecer nos teares dos empresários. À medida que se iam casando, construíam o seu próprio tear, que instalavam num anexo às suas casas, permitindo-lhes mais facilmente conjugarem as actividades do tear com a vida doméstica.
Rafael Henriques Sousa controlava todo o processo produtivo de Seiras e Esteiras em junco, no Juncal. Assegurava todo o processo produtivo, desde a colheita do junco até à entrega do produto final, nunca vendendo à peça; comprava junco, em grandes quantidades, nos arredores de Santarém, onde chegou a ter pessoal dedicado exclusivamente à colheita de junco para a sua empresa; comprava as tintas de que necessitava em grandes quantidades, em armazenistas do Porto e também revendia, na região, e adquiria o fio de juta em grandes quantidades, na Fábrica de Torres Novas. Além disso, ainda, controlava as vendas, sem intermediários (quando necessário deslocava-se a outras regiões do país para fazer entregas de produtos).
Chegaram a existir, no Juncal, vários empresários. Rafael Tomás Morgado, mais conhecido por “sacristão”, dedicou-se a este negócio nos anos 50 e 60. Francisco Marcelino, durante os anos 60, só vendia à peça (malas e cantos, ainda por coser), Conceição Simões e Iria Machado desenvolveram esta actividade nos anos 80. Nos anos 90 assistiu-se à decadência da produção. O último empresário a produzir seiras foi Belmiro da Conceição Sousa, o qual encerrou a sua actividade cerca do ano 2000.
2. PROCESSO PRODUTIVO
Enumeram-se de seguida, as várias fases que eram necessário encadear até chegar ao produto final, a Seira:
•APANHAR O JUNCO
•SECAR O JUNCO
•ATAR E CORTAR O JUNCO
•LAVAR O JUNCO
•COLOCAR NO POTE
•TINGIR O JUNCO
•URDIR O TEAR
•SAFIAR O TEAR
•TECER
•CORTAR O TEAR
•ATAR AS MALAS E OS CANTOS
•CORTAR AS PONTAS
•APARCEIRAR AS MALAS COM OS CANTOS
•COSER AS MALAS AOS CANTOS
•COLOCAR AS ASAS
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O processo produtivo de artefactos em junco é excessivamente dispendioso, longo e exclusivamente manual. Enquanto objecto utilitário, a Seira foi substituída por produtos incomparavelmente mais baratos (sacos de plástico, por exemplo). Em 2010 a empresa “Pingo Doce Distribuição Alimentar, S.A.” modificou os seus sacos recicláveis, imprimindo excelentes fotos de seiras no seu exterior, criando a ideia de se estar em presença de verdadeiras seiras (e com um preço muitíssimo mais baixo).
Agora que a produção de seiras quase acabou, é curioso ver persistir a sua estética num contexto sócio-económico, cultural e tecnológico inteiramente diferente. Esta persistência surge como um verdadeiro desafio. Desperta-nos para a pergunta: que futuro para os produtos em junco, em especial as SEIRAS?
A sobrevivência destes produtos poderá passar pela sua recriação e reposicionamento no mercado.
Autores do texto e fotografias:
Dr. Carlos Mendonça
Senhora Célia Gomes
sexta-feira, 8 de abril de 2011
Apontamentos Históricos da Freguesia do Juncal
As feiras/ mercados
Nestas comunidades rurais que viviam em autarcia, produziam-se no entanto, alguns produtos excedentários que deveriam ser transaccionados para adquirir outros produtos que a comunidade local não produzia. Assim as feiras eram locais importantes para estas trocas. O local da feira situava-se fora do aglomerado urbano, porque a presença de animais para comerciar e de transporte deixavam grande quantidade de excrementos e maus cheiros que era preciso evitar na zona habitacional.
Estes excrementos, após o fim da feira eram aproveitados para estrumar as terras. Pertencia às crianças este trabalho. Munidos de um saco de serapilheira apanhavam para o mesmo o estrume.
Factor importante na definição do lugar da feira era a existência de água. Por isso. Situavam-se junto a barreiros e a lagoas. A água era indispensável para sedentar os animais que se dirigiam e encontravam durante várias horas na feira. Tratando-se de animais que se destinavam a comercializar, antes da feira os donos alimentavam-nos muito bem, a fim de apresentarem melhor aspecto, pelo que era normal terem sede.
Nas feiras eram transaccionados todos os tipos de animais, pelo que ela se apresentava organizada por sectores relacionados com cada espécie. Além dos animais comercializavam-se outros géneros de produtos agrícolas e em algumas produtos diversos destinados às várias necessidades diárias das pessoas.
Para além do aspecto comercial a feira era um encontro social. Mesmo alguns que não tendo qualquer produto para transaccionar não deixavam de ir à feira. No comércio de animais havia alguns homens que apenas assumiam a função de intermediários, não chegando a disponibilizar qualquer valor pecuniário. A sua presença no negócio apenas servia para pressionar o vendedor, o comprador ou ambos a fazer o negócio.
A feira realizava-se mensalmente e sempre no mesmo dia do mês, sendo geralmente conhecida pelo dia em que se realizava. Assim feira dos sete, dos vinte, dos catorze…
Nos mercados geralmente semanais vendiam-se géneros alimentares, peças de vestuário etc. Não se comercializavam animais de grande porte. Comercializavam-se animais de capoeira.
O surgimento de novas feiras em localidades que ainda as não possuíam, poderia arruinar e acabar a médio prazo com uma feira antiga. A passagem da feira mensal de São Mamede para quinzenal, ditou o fim da feira do Bajancão. Esta situação do fim de algumas feiras devido ao aparecimento de uma outra ou do crescimento de alguma já existente está relacionado principalmente com o aparecimento de meios de transporte motorizados.
Após a entrada de Portugal na União Europeia e fruto de rigorosa legislação a presença de animais nas feiras começou a ser dificultada e hoje praticamente não se vêem em tais locais, pelo que dando continuidade cultural à feira, ela continua a existir mas com outros produtos.
Além da venda nas feiras e mercados muitos produtos vendiam-se à porta. Havia, ao contrário de hoje, procura de produtos nestas aldeias.
Também havia senhoras que fazendo-se transportar em burros se dedicavam a comprar queijos e ovos nas aldeias e que iam vender às gentes das vilas próximas.
Professor Manuel Carvalho
Apontamentos Históricos da Freguesia do Juncal
Trabalhos colectivos e entreajuda
Além do trabalho colectivo, na recuperação de caminhos vicinais e públicos, na limpeza e conservação de Barreiros e lagoas, de acudir a um incêndio numa casa ou palheiro, (os incêndios florestais não aconteciam até à década de oitenta), há a registar a colaboração voluntária da vizinhança e de familiares em trabalhos agrícolas ou trabalhos relacionados com construções particulares. Ao falarmos em trabalhos colectivos, referimos também tarefas cuja realização por uma só pessoa levaria tanto tempo que a utilidade do trabalho acabaria por se perder por não ser possível satisfazer as exigências das condições de tempo ou do calendário agrícola, nem atender ao andamento ou ao estado das culturas agrícolas. De facto, este tipo de entreajuda designado nestas comunidades locais por “troca de trabalho” ou “andar a mercer”, ajustava-se às exigências dos trabalhos agrícolas sazonais, quando as culturas apresentam um grau de desenvolvimento que implica, muitas vezes, a necessidade de actuar de forma rápida e atempada. Assim, algumas mulheres, “trocavam” manhãs, tardes ou dias inteiros, unidas em esforço e em espírito de auxílio. Iam mondar as searas, ceifar as culturas forrageiras e ervas espontâneas, ceifar as searas de trigo e de aveia, vindimar, colher a azeitona. Havia ainda trabalhos que se faziam em grupo formado espontâneamente, quando se desconfiava que o tempo não estava seguro, e o vento, a formação repentina de nuvens carregadas, anunciavam uma trovoada. Rápidamente juntavam-se vizinhos para acautelar a aveia forrageira que estava a secar ao sol, protegendo-a da chuva, construindo, logo ali, medas. Também o trabalho de debulha de cereais e de malhar as leguminosas na eira eram objecto de frequente ajuda. Ainda descamisar, malhar e descarolar o milho, atraíam a vizinhança.
Trabalhos que necessitassem de muita gente, como a subida da telha para cobrir a estrutura de madeira dum telhado, eram planificados para um dia em que havia disponibilidade de muita gente, geralmente um Domingo. Após a conclusão do trabalho o dono da obra oferecia uma merenda aos colaboradores, onde não faltava abundância de vinho.
Já um trabalho agrícola realizado ao Domingo ou Dia Santo era considerado pecado e explicava-se às crianças que a mancha mais sombreada que se observa na lua cheia, representa um homem carregando um molho de silvas nas costas, castigo imposto por Deus, pelo facto de ter procedido à limpeza dum silvado num terreno ao Domingo.
Muitas vezes, o início do trabalho colectivo era anunciado com o lançamento dum foguete. A solidariedade não se verificava apenas no combate a um incêndio, na colaboração na colocação de um telhado, num trabalho agrícola, mas também quando acontecia um acidente.
Verificava-se sobretudo após o acidente. Contribuía-se sobretudo com tempo mas também com bens materiais e por vezes com dinheiro.
Também os casamentos exigiam a solidariedade da família e da vizinhança. Vários dias antes começava-se a preparar a boda. Homens preparavam o espaço, geralmente um barracão, preparavam mesas e bancos matavam as cabras, os coelhos e as galinhas, enquanto as mulheres emprestavam as loiças, os tachos e as panelas e providenciavam em tudo o que fosse necessário para a confecção dos alimentos, nomeadamente em amassar e cozer o pão e a broa, pelo que se utilizavam vários fornos .
Professor Manuel Carvalho
Professor Manuel Carvalho
Apontamentos Históricos da Freguesia do Juncal
Os Bailes
Os bailes constituíam, até meados do século XX, para a mocidade das aldeias a principal forma de divertimento. Havendo muitas raparigas numa determinada aldeia era sinónimo de aí se realizarem muitos bailes e de bailes com sucesso. O local de realização do baile poderia ser uma eira, um terreiro público, um celeiro vago, um armazém particular etc.
Os organizadores dos bailes, eram alguns rapazes, que contratavam um tocador de concertina. Havia bailes afamados por serem muito concorridos por gente da terra e ainda rapazes de fora. Num canto do salão improvisava-se um bar onde se vendia vinho, laranjadas e pirolitos, acompanhando as bebidas com tremoços.
Apesar das entradas serem francas, para angariação de receitas para pagar ao tocador e eventualmente haver algum lucro destinado a uma jantarada para os organizadores, vendiam-se as modas. Um dos organizadores leiloava as “modas”. Antes de cada dança, leiloava a dança seguinte e o rapaz que lançasse maior valor, ficava com o direito exclusivo de autorizar os rapazes que podiam dançar essa moda, ficando ele com a total liberdade de escolher a rapariga que mais lhe interessava. Esta, se não gostasse do par não era obrigada a dançar com ele, no entanto, caso se recusasse, não poderia dançar essa moda, mesmo que o desejasse fazer com outro rapaz. Esta prática levava à competição monetária entre os rapazes, sobretudo entre os que eram menos apreciados pelas raparigas, uma vez, que se lançassem mais que os outros poderiam impedi-los de dançar, e caso elas aceitassem dançar com eles, representava motivo de satisfação e de orgulho. Muitas vezes, esta prática dava a conhecer o dinheiro que os rapazes possuíam no momento do baile. Ao revelarem interesse, lançavam até onde podiam ir, e podiam ir até ao dinheiro que possuíam. Alguns ficaram conhecidas por uma alcunha que correspondia a uma quantia monetária. Assim “sete e quinhentos”, “trinta”, são nomes pelos quais são conhecidos alguns homens que frequentavam estes bailes. Com os lucros obtidos os organizadores, após o baile iam para uma taberna da aldeia conviver à volta da mesa, comendo uma patuscada.
À volta da sala de baile era colocada uma fileira de cadeiras ou bancos corridos para as mães das raparigas se sentarem. A maior parte das mães não autorizavam a presença da filha no baile sem o seu acompanhamento. Observavam os rapazes que dançavam com as filhas e incentivavam-nas ou desaconselhavam-nas no seu envolvimento com um determinado rapaz. Assim, empurravam-nas para o casamento se o rapaz fosse referenciado por pertencer a boas famílias. Caso contrário, interditavam a empatia. Pertencer a boas famílias não era apenas uma questão dos valores que essa família praticava. Era também a posse de bens, geralmente terras agrícolas que possuíam. Procurava-se que a família do rapaz possuísse terras, que deveriam ser vir de dote e eram a garantia dum bom futuro. Além da regularidade com que se faziam os bailes nas tardes de Domingo, excluindo o tempo da Quaresma, onde os mesmos eram interditos, também os havia sempre em festas de casamentos e no dia de Entrudo.
Professor Manuel Carvalho
segunda-feira, 28 de março de 2011
Apontamentos Históricos da freguesia do Juncal
Há notícias do seu povoamento pelo menos desde a romanização. Foram encontrados vários vestígios materiais atribuídos a povos deste período, nomeadamente moedas romanas, bigatus e quadrigatus, cunhadas por imperadores de Roma, anteriores e posteriores à época cristã. Também há documentos que provam o povoamento de alguns lugares, nomeadamente Andam e Quinta de São Paio, anterior à fundação de Portugal.
Certamente que estes factores, aos quais se associaram outros, contribuíram para que ainda hoje, seja considerada uma das freguesias mais importantes do concelho.
Achados arqueológicos:
Necrópoles primitivas
Para além dos vestígios romanos, há noticias da destruição de uma necrópole descoberta por trabalhadores rurais no dia 15 de Maio de 1865 no sítio denominado Barreiras Caientas, onde foram encontradas várias ossadas humanas, presumindo-se terem pertencido a populações que viveram na Idade do Ferro. Havia uma laje sob a cabeça de cada esqueleto, e estavam todas voltadas para Este. Num local sobranceiro, à parte, encontrava-se uma sepultura cavada na rocha.
Neste mesmo ano figuraram dois exemplares destes esqueletos na Exposição Internacional, enviados pelo lente da Escola Médica do Porto, Dr. Augusto Luso da Silva, que os recebeu do padre António Pereira Louro, natural da hoje freguesia da Calvaria. Junto às sepulturas estavam pequenos objectos de ferro. Perto apareceram mais algumas ossadas e mais alguns objectos de natureza bélica e de pedra.
Nas investigações que se fizeram até à Ribeira a cerca de 200m viu-se uma grande quantidade de ossadas com as cabeças viradas para Nascente. Formavam um conjunto de ossadas pertencentes a pessoas de várias idades. A área deste achado rondaria os 144m2. Aqui apareceu também uma urna de barro vermelho com 77cm de altura, toda atulhada de ossos e que foi totalmente destruída pela curiosidade popular, na esperança de encontrarem algum tesouro. Junto estava um moinho de mão com 66cm de diâmetro e a um metro de profundidade descobriu-se uma calçada muito bem feita e em excelente estado de conservação, com dois metros de largura, tendo-se desaterrado numa extensão de cerca de 60m, na direcção de N/S, paralela à Ribeira.
Hoje, infelizmente, não são conhecidos estes vestígios.
RELIGIÃO
Principais Locais de Culto:
Igreja Matriz – Edifício oitocentista construído num pequeno morro, virado para nascente. Apresenta um frontispício imponente, digno de apreço e de admiração, mais exuberante e rico a nível escultórico que as igrejas da região à sua volta. No pequeno frontão, por cima do frontispício estava e está bem realçada e avivada a “data” de 1780, o que tem levado, creio por equívoco, a considerar este o ano de conclusão deste templo. Pensamos tratar-se de uma data feita a partir de uma simbologia religiosa que existia e que foi transformada incorrectamente em números. Afirmamos isto porque em 2007, aquando de obras de requalificação deste edifício, nomeadamente no decurso da limpeza e lavagem da pedra e da cal, depois de alertados, tivemos a oportunidade de, através da máquina que elevava o andaime, aproximarmo-nos dos três símbolos, hoje tidos como números, feitos em relevo, de onde não constava o algarismo um, e o primeiro símbolo era igual ao algarismo sete, sendo o segundo símbolo parecido com o algarismo 8, mas maior que o sete e com a bola superior maior que a inferior e um pouco aberta. Também o terceiro símbolo não era nitidamente o número zero.
Apesar das dúvidas do que significaria, mas da certeza que não se tratava de uma data, cometeu-se o erro de tornar a desenhar a data de 1780.
O Interior da Igreja Matriz é constituído por uma só nave com dois altares colaterais. As paredes estão forradas com belos painéis de azulejos feitos na própria terra, na Real Fábrica de Cerâmica do Juncal. A capela mor é majestosa, almofadada, com quatro colunas de mármore, medalhões em relevo pintados a óleo, uma bem trabalhada glória de querubins, molduras e talhas douradas dignas de apreço.
Ainda sobre o pórtico principal, a igreja tem um bom trabalho escultórico representando S. Miguel, padroeiro desta freguesia. Festejado tradicionalmente em 29 de Setembro de cada ano, passou a festejar-se ultimamente em data incerta.
Os festejos duram vários dias e para além da parte religiosa há a parte cultural e recreativa. Os festejos são concorridos por muita população. Os festeiros não se poupam a esforços para em cada ano apresentarem um programa festivo variado e rico em actividades de modo a darem grande brilho às festividades.
Capela de S. Miguel do Peral – Pensa-se que se trata da mais antiga Capela do Juncal, construída no século XVI, no sítio denominado Freireta, onde teve origem, segundo se pensa, o primitivo lugar do Juncal.
Capela particular
Na vila do Juncal existe uma capela particular mandada construir pelo devoto Joaquim Caetano na primeira metade do século XX, (1940-42) dedicada ao sagrado coração de Maria. Sobre a porta principal tem um pequeno painel que diz “Doce Coração de Maria sede a minha salvação”. No cunhal do lado esquerdo tem outra legenda que diz o seguinte “à Santíssima Virgem de Nossa Senhora de Fátima, concebida sem pecado original, como preito de gratidão e amor filial, foi levantada esta capela começada em 13/5/1940. A data da construção não foi ao acaso, mas propositada, por ser o dia e o mês em que se iniciam todos os anos as grandes peregrinações a Fátima e o dia em que se comemora o aparecimento, pela primeira vez, da virgem aos pastorinhos. Também cremos que o ano de 1940, foi escolhido por ser o ano em que o Estado Novo, decidiu fazer com grande pompa as comemorações do tricentenário da Restauração da Independência Portuguesa, tendo-se-lhe associado muita população que em muitas freguesias decidiram erigir pequenos monumentos alusivos ao acontecimento, e que certamente este devoto de Nossa Senhora de Fátima se associou.
Capela em honra de Santo António no Andam – No local onde se encontra a actual Capela, restaurada em 1945, já teria havido uma ermida, e que foi transformada em Capela em 1794. A festa em honra do padroeiro realiza-se no mês de Junho.
Capela de invocação de Nossa Senhora da Piedade – Situa-se no lugar do Chão Pardo, parece que foi construída no século XVI, tem boa talha dourada do século XVII e no exterior a lápide seguinte: “Chão Pardo, esta Capela foi reconstruída pelo povo do lugar em 1965 – O presidente da Comissão António Agostinho Amaro”. A imagem da Pietá em pedra policromada, é uma valiosa obra de Arte Sacra quinhentista, digna de maior apreço, à qual antigamente eram feitas romagens de devotos, vindos de toda a região. Esta imagem foi restaurada na sua pintura em 1868.
Capela de Nossa Senhora do Carmo – Situa-se no lugar de Vale de Água, foi construída em 1744, dedicada a Nossa Senhora do Carmo.
Capela de invocação de São Bento – Situa-se no lugar da Boieira, tem duas belas imagens consideradas quinhentistas, S. Bento e Santa Ana, de pedra policromada. A data de 13-3-1856, existente na pia da sacristia, deverá ser a era da ampliação da Capela.
Capela de Nossa Senhora do Amparo – Situa-se na Cumeira, construída em 1874. Anterior a esta, nas proximidades terá existido outra com a mesma invocação e construída por um particular, na Quinta da Bela Vista em 1720, na qual rezou a primeira missa o Padre Teodoro, natural da Cumeira.
Na quinta de Santo Amaro existem as ruínas duma Capela do século XVII que teve alpendre e era dedicada ao Santo que deu o nome à Quinta.
Capela de Nossa Senhora da Conceição – situa-se nos Casais Garridos, com festa no mês de Maio e restaurada na primeira metade do século XX.
No lugar de Picamilho, foi construída uma Capela cuja lápide exterior tem a seguinte inscrição: “Bênção da primeira pedra em 6/6/1976”.
Usos e costumes
Este povo, mais no passado, mas ainda hoje, associava à Igreja as principais acções de interesse público, social e cultural.
Por exemplo, o velho hábito de no mês de Maio, mês consagrado a Maria, os jovens rapazes e raparigas irem alegremente pelos campos apanharem flores silvestres e verduras diversas para juncarem as ruas dessas perfumadas espécies da natureza, culminava sempre com uma colorida romagem à igreja, onde as raparigas iam levar ofertas dentro de açafates devidamente engalanados com essas flores, entoando cânticos apropriados à circunstância. Repetia-se isto todas as tardes dos Domingos de Maio, e os géneros alimentícios das ofertas eram leiloados logo a seguir à função religiosa, com recitação do terço. Hoje, já não se vê.
Outros símbolos da religiosidade destes povos eram os oito cruzeiros em cantaria, existentes em diversos locais do Juncal, ao pé dos quais se parava, rezava ou cantava, quando por eles passavam os funerais. Actualmente alguns desses cruzeiros já não existem.
Outrora, era também costume os Juncalenses oferecerem oliveiras à Igreja, do rendimento dos quais se tirava o azeite para manter a lamparina da Igreja acesa de noite e de dia, e para as despesas do culto o resto que sobrasse.
Em relação a isto conta-se que há cinquenta anos, apareceu um anúncio emanado das autoridades de Porto de Mós, que dizia ir ser vendido em hasta pública todo o olival do “senhor”, do Juncal. Houve naturalmente grande surpresa e inquietação, principalmente por parte do pároco, padre Benevenuto e confrarias da igreja, que se deslocaram imediatamente a Lisboa para junto de instâncias superiores fazerem anular tal venda, o que foi conseguido graças ao empenho das figuras gradas desta freguesia.
Recentemente, quando se precisou de avultadas verbas para as obras de conservação da Igreja matriz, equacionou a Comissão Fabriqueira, colocar à venda este património antigo da Igreja. A decisão de venda destes imóveis deveu-se não só à necessidade de receitas para a conservação e requalificação da Igreja mas também para a conclusão da Casa de Velório que estava a ser construída em terrenos junto à Igreja e no sítio onde se situava o antigo cemitério da paróquia.
Aspectos Sociais
Apesar de nas últimas décadas com enorme rapidez ocorrerem mudanças muito significativas a todos os níveis na sociedade, nomeadamente mudanças relacionadas e introduzidas com as novas tecnologias de informação e comunicação, com os sistemas económicos e sociais à escala global conjugados com o sistema de ensino, na freguesia do Juncal ainda é possível encontrar testemunhos de modos de vida, tradições, usos e costumes que perduram ao longo dos tempos quase imutáveis, mas que hoje, já não existem fora da memória das suas gentes. A vida quotidiana alterou-se desde logo porque o trabalho no campo tem vindo a diminuir, e porque o trabalho agrícola, realiza-se com menos mão- de -obra, sendo hoje poucas as pessoas que nele tem a sua actividade principal. A diminuição de mão-de-obra agrícola tem diminuído como consequência do abandono da terra e também devido à mecanização. Por consequência, o hábito tradicional de entreajuda entre a vizinhança praticamente desapareceu, a organização da vida da comunidade alterou-se, não se vendo ao contrário de outrora, grupos de homens que se organizavam localmente para várias actividades como, consertarem e melhorarem caminhos, limpar linhas e valas de água, regulamentarem o uso e a partilha de água comum para a rega, a limparem e a construírem fontes, a associarem-se de forma informal em sociedades e organizações como: mútuas de seguro de gado bovino, confrarias de socorro e de enterro dos defuntos, a participarem na tradicional matança do porco, a desenvoverem numerosos trabalhos agrícolas. Os mais idosos recordam com nostalgia histórias desse passado, contando-nos com entusiasmo as suas vivências de crianças, da adolescência e da juventude. Recordam trabalhos que também representavam momentos de divertimento: a descamisada do milho e os costumes a ela associados, a debulha do trigo na eira e as voltas que se davam na mesma em cima do trilho - divertido carrocel - , a preparação dos doces e das filhós para a festa da matança do porco, as canções à desgarrada, as cantigas que ajudavam a aliviar a dureza da ceifa ou da apanha da azeitona e as cantigas que comandavam grupos de cavadores por exemplo na plantação de vinhedos.
Personalidades ilustres
Alguns filhos ilustres honraram o Juncal, lutando pelo seu desenvolvimento e pelo bem-estar dos seus conterrâneos e das gentes da terra onde nasceram. Outros, não sendo daqui naturais, por razões profissionais, aqui se estabeleceram contribuindo decisivamente para o engrandecimento desta terra. Não os podendo mencionar neste trabalho todos seleccionei três: um da área religiosa, outro da área cultural/educativa e outro da área económica.
Padre Benavenuto, era natural de Alburitel, concelho de Ourém, mas paroquiou o Juncal cerca de 40 anos, pelo que se interessou muito por esta terra e por estas gentes. Era um excelente organista e sabido na arte de representar.
Rafael da Fonseca Barreiros Calado, que pelos seus elevados dotes naturais, se destacou nas Artes, nas Letras e em actividades económicas. Foi excelente artista, jornalista, poeta, historiador, agricultor e industrial.
Na sua casa, antigo solar do Correio Mor, reuniu e se encontrava com as mais diversas figuras de relevo do seu tempo, da literatura, história, arqueologia, etnografia etc. Do que deixou escrito destaca-se “Leiria e a Reforma Administrativa. Representação ao governo do Estado Novo –Composto e impresso na tipografia Mendes Barata (Leiria) em 1936; A Fonte Santa; Lenda de Nossa Senhora da Nazaré; Perfil da Condessa d ella Madrastra Del Rei d. Luís I, 1886; e deixou numerosas gravuras de monumentos, paisagens e riquezas do distrito. Divulgando e enaltecendo as potencialidades sócio-económicas e os atractivos de interesse turístico do Juncal, ele interessou-se como ninguém, pela defesa e preservação dum vasto espólio de raro valor arqueológico e etnográfico. Recentemente seu nome foi, muito justamente, atribuído a uma rua do Juncal.
João Coelho da Silva, importante industrial de barro vermelho, tendo sido fundador da fábrica João Coelho e filhos existente no lugar da Cumeira, nesta freguesia e que é hoje, uma das mais modernas e maiores empresas do sector, exportando já uma parte significativa da sua produção para vários países e continentes. Foi distinguido e condecorado por um ex Presidente da República na área empresarial. Além da sua inteligência e ousadia na área do empreendedorismo, revelou-se também como um dos maiores filantropos da região. Muito amigo da sua terra, Juncal, e das suas gentes apoiou materialmente várias instituições públicas que contribuíram e contribuem para o engrandecimento do Juncal, e lutou pelo seu desenvolvimento e pelo bem estar da população. Reconheceu a população a ajuda e o apoio desinteressado deste Homem e homenageou-o com a colocação do seu busto no largo existente junto à sede da Junta de Freguesia.
Além destas personalidades que individualizei, importa referir outros que de forma colectiva se distinguiram, entre eles os cerca de trinta combatentes que tomaram parte na primeira grande guerra, ou recuando duzentos anos no tempo os que devido às
às invasões francesas que atingiram intensamente a freguesia do Juncal, resistiram até à morte, e foram muitos.
segunda-feira, 14 de março de 2011
A Alimentação dos Monges Cistercienses de Alcobaça no século XVIII
O século XVIII pode ser encarado na vida do Mosteiro de Alcobaça tanto como um período de auge como de decadência, consoante o prisma da análise em que nos colocamos. Em matéria de economia agrícola coincide com a plantação dos vastos olivais da beira Serra dos Candeeiros e com a difusão do milho grosso nas terras de campo da Maiorga, Valado e Cela, assim como na edificação de infra-estruturas de produção e fundação de novas Granjas. Naturalmente, as rendas do Mosteiro ampliam-se, o que se repercute numa abastança e desafogo da vida económica. Em contrapartida, assistia-se a um relaxamento dos costumes, a uma sobreposição do material sobre o espiritual, a um desvio do caminho da humildade imposto na Regra que definia a vida das comunidades cistercienses. O monge farto e ocioso de barriga proeminente não será portanto apenas uma invenção malidecente do liberalismo mais radical.
Os cistercienses de Alcobaça mantiveram praticamente intactos os seus direitos dominiais, senhoriais e os monopólios sobre os meios de produção. Cobravam os quintos da azeitona (no pé do olival), alhos, cebolas, linho, fruta e uvas brancas (as tintas de cobertura dos vinhos estavam normalmente isentas ou eram pagas na eira); o quarto dos legumes e pão (designação para o trigo, o milho, o centeio, cereais que eram colectados na eira); os dízimos verdes, de sangue e pescarias; a jugada e fogaça de um alqueire de trigo sobre os lavradores; as portagens; os terrados das feiras; a galinha de casaria sobre qualquer fogo (habitação); as maquias de lagares de azeite (dízimo do melhor azeite lavrado); os foros de moinhos e azenhas e das terras de cultura (em pão meado, terçado e quartado e em animais como galinhas, frangos e galos capões, porcos – porco gordo de quatro arrobas –, carneiros, cera, azeite, vinho, numerário); o montado (bianual) dos porcos – um animal por vintena; a lagarádiga por fabrico do vinho; os direitos sobre as águas e ventos que animavam os moinhos de pão e outros engenhos.
As rendas da exploração directa associadas aos múltiplos foros garantiam a autarcia do Mosteiro e permitiam ainda negociar os excedentes, assegurando uma interessante rede comercial.
| Refeitório do Mosteiro de Alcobaça |
O que comem os monges reflecte, em grande medida, as posses da comunidade, o seu estatuto social e os princípios ideológicos que a norteiam. Vamos então observar os produtos que chegavam à mesa monástica.
Começamos pelo pão e para não haver confusões falamos de pão de trigo alvo, dado que o povo dos coutos consumia um pão negro em virtude da fraca taxa de peneiração, que irá ser substituído pela broa de milho. Aliás, o pequeno pão ou merendeira, designado por micha, que os monges distribuíam diariamente aos pobres na portaria do Mosteiro e junto às Granjas, era constituído, essencialmente, de farinha de milho, algum centeio e rolão de trigo (desperdício do pão consumido pelos monges).
A carne que chegava à cozinha do Mosteiro não provinha toda de animais criados nas terras dos coutos de Alcobaça. A falta de pastos condicionava a criação de gado bovino. Durante o século XVIII, a maior parte dos animais de trabalho e açougue eram importados do Minho. A inexistência de vacas leiteiras obrigava o Mosteiro a adquirir barris de manteiga para abastecer a sua requintada cozinha. Já os rebanhos de ovinos do Mosteiro provinham em grande parte da região transmontana. A cozinha recebia grande quantidade de galinhas e frangos. De Maio de 1747 a 1748 regista-se a entrada de 7.788 galinhas e 519 frangos. Para igual período de tempo temos um consumo de 51.589 ovos. Por seu turno, a coelheira do Mosteiro, uma das maiores da Europa, abrigava cerca de 6.000 animais. Para além dos animais de criação, a gastronomia monástica era prendada por variadas peças de caça, entre as quais se contam coelhos e patos bravos, perdizes, codornizes, galinholas e ades (designação genérica atribuída às aves palmípedes). No lote de aquisições da cozinha do Mosteiro encontram-se lombos de porco, pedaços de toucinho, presuntos, enchidos, como as morcelas de Arouca, paios, leitões para assar, entre outros acepipes.
O peixe fresco consumido pelos monges provinha dos portos da Pederneira e de Peniche. Temos referências a cambadas de chernes, pargos, congros, corvinas, robalos, besugos, pescadas, sardinhas. Para além do peixe fresco, o Mosteiro adquiria pescada seca de Vila do Conde e de destinos mais longínquos, como a Holanda e a Irlanda, cação de Buarcos, grandes quantidades de bacalhau… Sáveis, enguias e lampreias, muitas lagostas e amêijoas, polvos e lulas, entravam regularmente na dieta alimentar dos monges brancos.
No capítulo dos queijos, ao requeijão e queijo fresco produzido nas queijarias locais, juntavam-se os queijos importados do Alentejo, de Parma, Flandres.
O vinho que acompanhava as refeições era produzido nas adegas do Mosteiro. Trata-se de um vinho produzido pelo método de bica aberta, temperado com maçãs camoesas, cascas de laranja e arrobe, cujo grau e sabor frutado cativou tantos e ilustres visitantes. Estima-se num quartilho (0,5 l) a quantidade de vinho ingerida a cada refeição pelos monges, mas este quantitativo podia ser mais elevado, dado que os copos em que se servia o vinho levavam bem, na opinião do Marquês de Fronteira e Alorna, meia canada (1 l).
As árvores de fruto tão acarinhadas pelos monges nos seus jardins e pomares repartem-se em frutos de caroço, pevide e espinho. Temos as maçãs camoesas e baionesas eleitas nos foros, as doces laranjas da China, ginjas, cerejas, damascos, figos, pêssegos e ameixas e nos frutos agros, as limas e limões. Para além da fruta fresca, o consumo também privilegiava as frutas secas, nomeadamente as passas de camoesas e peras de almíscar aparadas, de ameixas caragoçanas, etc.
| Cozinha do Mosteiro de Alcobaça (século XVIII) |
A doçaria está bem representada pelas extraordinárias compras de açúcar, arroz e leite indispensáveis ao arroz doce e manjar branco, pelos barris de manteiga, pelos inúmeros ovos, por arrobas de amêndoa (de Torres Novas), por chocolate… As artes da doçaria e conserva requisitavam grandes quantidades de peras, laranjas, pêssegos, cidras, abóboras e figos. A pêra e a abóbora cobertas eram consumidas em épocas festivas. Importavam-se bolos de Almoster, queijadas... A indústria apícola facultava o mel de tão grande utilidade no receituário de doces e também noutros pratos requintados e bebidas fermentadas.
António Maduro
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