segunda-feira, 14 de março de 2011

A Alimentação dos Monges Cistercienses de Alcobaça no século XVIII


            O século XVIII pode ser encarado na vida do Mosteiro de Alcobaça tanto como um período de auge como de decadência, consoante o prisma da análise em que nos colocamos. Em matéria de economia agrícola coincide com a plantação dos vastos olivais da beira Serra dos Candeeiros e com a difusão do milho grosso nas terras de campo da Maiorga, Valado e Cela, assim como na edificação de infra-estruturas de produção e fundação de novas Granjas. Naturalmente, as rendas do Mosteiro ampliam-se, o que se repercute numa abastança e desafogo da vida económica. Em contrapartida, assistia-se a um relaxamento dos costumes, a uma sobreposição do material sobre o espiritual, a um desvio do caminho da humildade imposto na Regra que definia a vida das comunidades cistercienses. O monge farto e ocioso de barriga proeminente não será portanto apenas uma invenção malidecente do liberalismo mais radical.
            Os cistercienses de Alcobaça mantiveram praticamente intactos os seus direitos dominiais, senhoriais e os monopólios sobre os meios de produção. Cobravam os quintos da azeitona (no pé do olival), alhos, cebolas, linho, fruta e uvas brancas (as tintas de cobertura dos vinhos estavam normalmente isentas ou eram pagas na eira); o quarto dos legumes e pão (designação para o trigo, o milho, o centeio, cereais que eram colectados na eira); os dízimos verdes, de sangue e pescarias; a jugada e fogaça de um alqueire de trigo sobre os lavradores; as portagens; os terrados das feiras; a galinha de casaria sobre qualquer fogo (habitação); as maquias de lagares de azeite (dízimo do melhor azeite lavrado); os foros de moinhos e azenhas e das terras de cultura (em pão meado, terçado e quartado e em animais como galinhas, frangos e galos capões, porcos –  porco gordo de quatro arrobas –, carneiros, cera, azeite, vinho, numerário); o montado (bianual) dos porcos – um animal por vintena; a lagarádiga por fabrico do vinho; os direitos sobre as águas e ventos que animavam os moinhos de pão e outros engenhos.
            As rendas da exploração directa associadas aos múltiplos foros garantiam a autarcia do Mosteiro e permitiam ainda negociar os excedentes, assegurando uma interessante rede comercial.

Refeitório do Mosteiro de Alcobaça

            O que comem os monges reflecte, em grande medida, as posses da comunidade, o seu estatuto social e os princípios ideológicos que a norteiam. Vamos então observar os produtos que chegavam à mesa monástica.
            Começamos pelo pão e para não haver confusões falamos de pão de trigo alvo, dado que o povo dos coutos consumia um pão negro em virtude da fraca taxa de peneiração, que irá ser substituído pela broa de milho. Aliás, o pequeno pão ou merendeira, designado por micha, que os monges distribuíam diariamente aos pobres na portaria do Mosteiro e junto às Granjas, era constituído, essencialmente, de farinha de milho, algum centeio e rolão de trigo (desperdício do pão consumido pelos monges).
            A carne que chegava à cozinha do Mosteiro não provinha toda de animais criados nas terras dos coutos de Alcobaça. A falta de pastos condicionava a criação de gado bovino. Durante o século XVIII, a maior parte dos animais de trabalho e açougue eram importados do Minho. A inexistência de vacas leiteiras obrigava o Mosteiro a adquirir barris de manteiga para abastecer a sua requintada cozinha. Já os rebanhos de ovinos do Mosteiro provinham em grande parte da região transmontana. A cozinha recebia grande quantidade de galinhas e frangos. De Maio de 1747 a 1748 regista-se a entrada de 7.788 galinhas e 519 frangos. Para igual período de tempo temos um consumo de 51.589 ovos. Por seu turno, a coelheira do Mosteiro, uma das maiores da Europa, abrigava cerca de 6.000 animais. Para além dos animais de criação, a gastronomia monástica era prendada por variadas peças de caça, entre as quais se contam coelhos e patos bravos, perdizes, codornizes, galinholas e ades (designação genérica atribuída às aves palmípedes). No lote de aquisições da cozinha do Mosteiro encontram-se lombos de porco, pedaços de toucinho, presuntos, enchidos, como as morcelas de Arouca, paios, leitões para assar, entre outros acepipes.
            O peixe fresco consumido pelos monges provinha dos portos da Pederneira e de Peniche. Temos referências a cambadas de chernes, pargos, congros, corvinas, robalos, besugos, pescadas, sardinhas. Para além do peixe fresco, o Mosteiro adquiria pescada seca de Vila do Conde e de destinos mais longínquos, como a Holanda e a Irlanda, cação de Buarcos, grandes quantidades de bacalhau… Sáveis, enguias e lampreias, muitas lagostas e amêijoas, polvos e lulas, entravam regularmente na dieta alimentar dos monges brancos.
            No capítulo dos queijos, ao requeijão e queijo fresco produzido nas queijarias locais, juntavam-se os queijos importados do Alentejo, de Parma, Flandres.
            O vinho que acompanhava as refeições era produzido nas adegas do Mosteiro. Trata-se de um vinho produzido pelo método de bica aberta, temperado com maçãs camoesas, cascas de laranja e arrobe, cujo grau e sabor frutado cativou tantos e ilustres visitantes. Estima-se num quartilho (0,5 l) a quantidade de vinho ingerida a cada refeição pelos monges, mas este quantitativo podia ser mais elevado, dado que os copos em que se servia o vinho levavam bem, na opinião do Marquês de Fronteira e Alorna, meia canada  (1 l).
            As árvores de fruto tão acarinhadas pelos monges nos seus jardins e pomares repartem-se em frutos de caroço, pevide e espinho. Temos as maçãs camoesas e baionesas eleitas nos foros, as doces laranjas da China, ginjas, cerejas, damascos, figos, pêssegos e ameixas e nos frutos agros, as limas e limões. Para além da fruta fresca, o consumo também privilegiava as frutas secas, nomeadamente as passas de camoesas e peras de almíscar aparadas, de ameixas caragoçanas, etc.

Cozinha do Mosteiro de Alcobaça (século XVIII)

            A doçaria está bem representada pelas extraordinárias compras de açúcar, arroz e leite indispensáveis ao arroz doce e manjar branco, pelos barris de manteiga, pelos inúmeros ovos, por arrobas de amêndoa (de Torres Novas), por chocolate… As artes da doçaria e conserva requisitavam grandes quantidades de peras, laranjas, pêssegos, cidras, abóboras e figos. A pêra e a abóbora cobertas eram consumidas em épocas festivas. Importavam-se bolos de Almoster, queijadas... A indústria apícola facultava o mel de tão grande utilidade no receituário de doces e também noutros pratos requintados e bebidas fermentadas.



António Maduro

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

São Bernardo (c.1090-1153)



São Bernardo nasceu em 1090, no castelo de Fontaine perto de Dijon, França.
A sua figura marcou a história religiosa e cultural. Possuiu uma fé inabalável em Cristo e um espírito combativo e persistente nas causas em que acreditava.
O seu poder como condutor dos homens residia numa verdadeira e genuína convicção naquilo que defendia: o regresso a uma religião de autenticidade e ascese mística, vivida no mais rígido voto de pobreza e desprendimento dos bens materiais.
Para alcançar a verdade em Deus, não se poupou a sacrifícios. Em 1112 decide fazer-se monge em Cister, levando consigo alguns dos irmãos e numerosos companheiros. Nos primeiros tempos em Cister sujeitou-se a violentas mortificações e autoflagelações que o levaram a contrair a doença que o martirizou toda a sua vida e acabou por o vitimar. Foi nesse período de penitência e sacrifício que começou a ser beneficiado por visões e graças místicas extraordinárias.
Foi um revolucionário no sentido de libertador e reformador; um rebelde pois viu-se na condicionalidade de enfrentar o poder, dentro e fora da igreja; foi um visionário já que se adiantou ao seu tempo escrevendo coisas que encontraremos mais tarde nos místicos dos séculos XVI-XVII; foi também um exemplo, pois fez da sua vida um monumento à fé cristã, traçando planos e projectos, elaborando escritos e sermões, desenhando e estruturando ideias dentro da sua própria ordem.  
Esta actividade editorial e a imensa obra intelectual que nos deixou, valeram-lhe o título de Doutor de Igreja.
O Papa Pio XII apelidou-o de “o último dos Padres da Igreja, e não o menor”.
A 20 de Agosto de 1153, São Bernardo morre em Claraval.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A Alimentação no Juncal até meados do século XX

A alimentação das pessoas destas aldeias foi durante muito tempo confeccionada com produtos da terra, cultivados nas hortas familiares, para utilização e consumo imediato, ou cereais e leguminosas colhidas na safra anual e depois de secos conservados.
Os principais produtos hortícolas eram as batatas, cebolas, alhos, couves, nabos, ervilhas, abóboras, favas e chícharos. Sobre os chicharos vale a pena fazer referência -as gerações mais novas não sabem o que é -, leguminosa muito cultivada no período da conquista de terra, tinha grande valor na alimentação humana e animal, muito usado para engordar porcos e para alimentar animais de trabalho, nomeadamente quando em épocas de maior esforço. Após a conquista de terra, com o início da mecanização e surgimento das rações industriais a sua cultura deixou de se fazer, tendo desaparecido quase por completo. Hoje, para recuperar esta leguminosa e voltar a introduzi-la na alimentação humana fazem-se festivais gastronómicos do Chícharo, como tem acontecido todos os anos a partir de finais de 2006, perto de Fátima, na freguesia de Santa Catarina da Serra, concelho de Leiria e em Alvaiázere, onde se juntam dezenas de milhar de pessoas para provarem pratos diversos confeccionados a partir do Chícharo.
Das leguminosas o feijão era a mais importante, logo seguido da grão-de-bico. A propósito do feijão dizia-se “casa onde haja azeite, couves, broa e feijão, não entra a fome”. Comiam-se feijões depois de secos e quando não estavam maduros, em verde. Esta variedade para ser mais produtiva, após estarem as plantas nascidas, colocavam-se canas que serviam de tutores às quais as plantas se enrolavam e trepavam.
As leguminosas eram colocadas a secar na eira e quando estavam secas eram malhadas por homens com manguais. As ervilhas e favas só se cozinhavam para alimentação humana antes de atingirem a alimentação. Secas, eram para alimentação animal.
Sem rigor de classificação, semeavam-se dois tipos de ervilhas: as de grão em que só o grão era aproveitado e as ervilhas de quebrar, cujas vagens era espalmada e cujos grãos não atingiam o mesmo tamanho das outras ervilhas e era cozinhada e comida a própria vagem.
Cereais: Mais importante o milho, mas também o trigo. A aveia e a cevada eram semeados para obtenção de grão para alimentar animais e sobretudo para forragem. O centeio pouco semeado, semeava-se quando a reserva de pastos secos para os animais era insuficiente para garantir a sua alimentação. Mais temporão que as outras forragens evitava a fome dos animais.
As batatas também tiveram muita importância na alimentação humana. Originárias da Cordilheira do Perú e do Chile, só chegaram à Europa a partir da segunda metade do século XVI. A cultura da batata tanto se fazia em solos onde havia água para irrigação como também em algumas terras de sequeiro. Cultivava-se na melhor terra, que ás vezes também em cultura sucessiva, era cultivada com milho. A importância da batata na economia doméstica das populações resultava ainda de se poderem conservar ao longo do ano até à colheita seguinte sem grandes técnicas.
As sobras dos produtos alimentares eram vendidas nas feiras e mercados das vilas industrializadas próximas como, Porto de Mós, Batalha e Alcobaça. Transportadas em Carroças ou no dorso das bestas. Mais tarde vendidas a grossistas à porta.
O milho veio a ter muita importância. Originário do México, o milho chegou à Europa depois do descobrimento da América. Da farinha do milho fazia-se a broa que acompanhada com algum conduto, queijo, azeitonas, toucinho e chouriça, ou colocada sob a forma de miolos na sopa, era o principal suporte alimentar destas populações.
As famílias rurais e camponesas, mesmo as que tinham mais dificuldades económicas, agricultando alguns pedaços de terra, vivendo em autarcia, tinham sempre com que fazer uma refeição, melhor ou pior.
O toucinho da matança do porco, era parcimoniosamente administrado para durar o ano inteiro. Estava na salgadeira, conservado em sal. As famílias mais pobres e as mais numerosas, na época da matança do porco trocavam os presuntos obtidos do seu animal pelo toucinho do porco das famílias mais poderosas economicamente e cuja qualidade de vida lhes permitia outros mimos e outra qualidade de carne. Satisfaziam-se os mais carenciados com a troca pois exclamavam: “trocamos carne com osso por carne sem osso e ficámos com maior quantidade”. O porco que se matava engordava-se com restos da cozinha “lavadura”, bolota, figos, bagaço de azeitona, beterrabas, abóboras e um pouco de milho. Dava-se “lavadura”, despejada na pia do porco, escavada num monólito de pedra.
Papas
As papas feitas essencialmente à base de farinha de milho, era outro alimento que assumia papel importante na alimentação dos habitantes desta região. Gente com poucos recursos e muito laboriosa, não lhes sobrava tempo para confeccionar comida muito elaborada, nem muitas vezes os ingredientes estavam à mão para isso. Daí o recurso frequente às papas.
Concluindo, diríamos que os produtos da terra resultantes do trabalho familiar eram a base da alimentação. A gastronomia era pobre. O consumo de carne era baixo e pouco variado. A carne de porco que se matava era o conduto para o ano inteiro. Exceptuava-se uma ou outra galinha que se matava quando algum familiar estava doente ou nalgum dia festivo, algum quinhão de carne de vaca que cabia a cada associado da mútua quando morria um bovino de morte súbita ou acidente e da carne de cabra quando se participava em bodas, como por exemplo casamentos.
Os próprios animais eram alimentados com os produtos da terra, assim se reforçavam a autarcia familiar doméstica em que viviam as populações.

Cozedura da Broa

Peneirar a farinha para a massadeira
As tarefas em que tal prática se desdobrava eram realizadas numa sequência rigorosamente respeitada.
       A cozedura da broa era uma actividade exclusivamente pertencente à mulher, podendo o homem colaborar na preparação da lenha para o aquecimento do forno. Actividade que se fazia semanalmente, a mulher recebia a farinha do grão, que havia dias antes mandado no “taleigo” ao moleiro cuja unidade de transformação eram os moinhos de água e de vento. Peneirava-a directamente para o alguidar de barro. A farinha era escaldada com água a ferver. Depois, deixava-se arrefecer. Então, amassava-se juntando água morna e adicionando sal que previamente se derretera em água numa tigela. Adicionava-se fermento em apropriada quantidade. Ao amassar, juntava-se um pouco de farinha de trigo para que a broa não ficasse quebradiça e a esfarelar-se. Assim a broa ficava mais macia. Depois de assim amassada a massa era composta no alguidar, era-lhe dada a forma arredondada que se afagava ligeiramente com as mãos e era polvilhada com farinha. A massa levedava dentro de um grande alguidar de barro colocado na lareira, com branda fogueira acesa, e coberta com um pano branco. No Inverno era também tapada com a ajuda de um cobertor. No topo da massa era sempre desenhada, com um dedo, uma cruz ao mesmo tempo que era dita uma pequena oração “Deus te levede em pão”. Seguidamente a mulher tendia-a e metia-a no forno. Muitas vezes o fermento era pedido à vizinhança. O forno deveria estar bem quente ao mesmo tempo que a massa estivesse levedada.
A massa é benzida para levedar
 O forno aquecia-se com lenha miúda, geralmente com os galhos mais miúdos dos ramos de oliveira e de outras árvores e arbustos autóctones que se haviam cortado e posto no curral para as cabras se alimentarem das folhas. A parte que não era comida era colocada no espaço destinado a armazenar a lenha e depois era colocada no forno. O fornecimento da lenha ao forno era controlado com a forma como decorria o levedar da massa, dado ser necessário a existência do sincronismo entre uma coisa e outra. Para compor o lume no forno, ora chegando neste a lenha mais para um lado ou para o outro de modo a distribuir homogeneamente a temperatura dentro do forno, usava-se um rodo. O rodo era constituído por uma vara de pau com cerca de dois metros de comprimento com uma pequena tábua, com cerca de 50cm de comprimento, pregada numa das extremidades. Com este rodo também se puxavam as brasas e acinza do interior do forno para a boca quando se verificasse que a temperatura era a ideal.
A broa é cozida no forno a lenha
Para limpar o lastro do forno atava-se à pá do rodo um pano velho molhado para se lhe agarrarem as cinzas. A temperatura do forno era determinada por estimativa, a partir da cor da abóbada interior do forno feita de cerâmica.
Cozer pão era um saber transmitido de mães para filhas ainda adolescentes.
Hoje, uma moradia moderna não dispensa a existência de um belo forno, no entanto a sua utilização é reduzida não só por ser mais cómodo adquirir o pão ao padeiro que diariamente o deixa à porta, ou adquiri-lo em cafés e pastelarias, mas principalmente porque as donas de casa não sabem amassar e cozer pão. O forno é assim mais um equipamento decorativo.

Matança do Porco

Ligadas à matança do porco, estava um conjunto de tarefas que eram sempre e rigorosamente respeitadas.
Cerca de quinze dias antes, cortavam-se os tojos ou preparava-se a caruma com os quais se chamuscava os pêlos do porco a fim de os eliminar, actividade que se realizava logo após a morte do animal. Três ou quatro dias antes convidavam-se os familiares e amigos mais próximos para a matança que era antes de tudo um encontro familiar. Na véspera,  não se dava a ceia ao porco para que os intestinos estivessem vazios e mais fáceis de lavar. A propósito da falta da ceia ao porco contava-se frequentemente às crianças uma pequena história: ”Dizia-se que o burro que vivia no curral ao lado do chiqueiro do porco era, por este, muitas vezes gozado. O porco gabava-se de levar uma vida regalada, sem nada fazer e a quem era fornecida boa alimentação, enquanto o burro tinha de executar tarefas duras e transportar cargas pesadas, sujeitando-se ao frio à chuva e ao calor, por vezes mal alimentado. O burro por ter aprendido com a experiência ia dizendo ao porco que aguardasse o dia em que não lhe fosse fornecida ceia e que o dia seguinte seria o fim da sua vida”. Começavam-se os preparativos para a festa, nomeadamente cozer a broa e fazer as filhós. Limpavam-se os utensílios, que há um ano não eram usados, como o xambaril, a salgadeira, o tabuleiro de madeira para colocar as tripas, a bexiga e o estômago (buxo) quando se procedia à abertura do animal.
Às vezes, após se ter procedido à marcação da matança e feitos os convites verbalmente, havia a necessidade de alterar a calendarização deste acontecimento. Tratando-se geralmente de matar porcas reprodutoras (Refugo) e,  se por ventura lhes chegasse o cio nas vésperas, não se procedia ao abate por dizerem que a carne ficava com outro sabor. Evitava-se sempre que  possível esta situação.
O porco é amarrado pelo chamaril a uma viga da despensa
Não havia o hábito de matar porcos machos, pela razão que não os havia. Geralmente na aldeia havia um produtor que possuía o varrasco que era alugado aos possuidores de porcas reprodutoras. Ao contrário de regiões vizinhas aqui não era o varrasco que se deslocava às suas “clientes”, mas era a fêmea que o visitava.
A porca era morta geralmente por asfixia. A porca saía do chiqueiro para o pátio, onde vários homens a agarravam e a derrubavam sobre mato de caruma com os membros para cima. Dois homens agarravam  as mãos do animal e colocavam-lhe o joelho no pescoço. Outros dois homens agarravam  as patas. Durante dez minutos assim permanecia o animal até que se concluísse que estava morto.
Seguidamente ateava-se o fogo ao tojo seco ou à caruma e, com uma forquilha, um dos homens ia passando com a chama sobre o animal enquanto os outros com facas velhas iam raspando o pêlo. Após este trabalho colocava-se a porca sobre uma bancada de madeira improvisada e lavava-se,  utilizando-se para esfregar a pele pedaços de telha de canudo de barro. Ficava impecavelmente limpa e “fazia-se o cu” . Este trabalho era feito por um homem mais especializado nesta tarefa que geralmente o fazia em todas as matanças onde ia. "Fazer o cu" consistia em abrir um circulo à volta do ânus do animal, a fim de poder atar com  um fio  o fim do intestino grosso para evitar que as fezes saíssem e sujassem o porco. Colocava-se o chambaril nas patas entre o nervo do pezunho e o xispo. Pelo chambaril se amarrava o porco a uma viga da despensa. De cabeça para o soalho, a cerca de trinta cm do mesmo, procedia-se à abertura. Tiradas as tripas,  as mulheres cortavam-nas em dimensões semelhantes e lavavam-nas muito bem. Estando lavadas eram colocadas num recipiente com sal, casca de limão e cebola onde permaneciam até ao dia em que se enchiam com carne e se faziam as chouriças.
O porco ficava aberto um dia a enxugar e no dia seguinte fazia-se o desmancho. Preparavam-se os presuntos. Quando se estava a abrir o porco todos os internvenientes da festa iam ver a espessura do toucinho. Quanto mais grossura tivesse melhor. Batia-se com uma mão na "manta" de toucinho do porco e exclamava-se “ Um cento como este!”.
Com o fígado e com o bofe fazia-se o prato mais esperado para a festa da matança e que se designava por cachola. Além deste prato havia sopa de grão de bico com batata e couve. Alguns frutos e filhós. Assim terminava a festa da matança, ficando para os dias seguintes a distribuição aos mais próximos da morcela.

Manuel Carvalho - Professor de História do Instituto Educativo do Juncal

sábado, 5 de fevereiro de 2011

A Economia do Juncal ao Longo dos Tempos

Agricultura
      A nível económico apesar da agricultura nas últimas décadas estar a passar por algumas dificuldades e muitas explorações agrícolas estarem a desaparecer, a freguesia do Juncal é a freguesia do concelho de Porto de Mós, que regista segundo os dados do último recenseamento agrícola (2009), o maior número de explorações agrícolas e aquela onde algumas explorações têm vindo a aumentar a área agrícola a fim de terem viabilidade económica. É também a freguesia do concelho onde algumas explorações (poucas) praticam hoje, uma agricultura virada para o mercado, no ramo da fruticultura explorada segundo o modelo capitalista, enquanto nas outras freguesias se está novamente a verificar uma agricultura de subsistência e de autoconsumo, ao mesmo tempo que se está a praticar uma agricultura de lazer que visa complementar o rendimento familiar obtido nos sectores secundário e terciário  e ao mesmo tempo a valorização ambiental. A população que trabalha na agricultura é predominantemente idosa e fá-lo não tanto por viabilidade económica desta actividade mas por afectos à terra e respeito pelos que da terra fizeram o seu modo de vida, que com enorme esforço a conquistaram e que a todo o custo a mantiveram e quiseram deixar como herança aos vindouros. Hoje, a terra agrícola  representa mais que um bem económico. Representa também um valioso património social e cultural.  Contudo, na freguesia do Juncal,  a importância que a agricultura sempre teve ao longo da sua história é ainda visível nos nossos dias sobretudo no sector frutícola, actividade, que nos lugares do Andam e Casal do Alho têm maior expressão e visibilidade quer através dos pomares existentes e cuidados, quer pelos vários armazéns privados de conservação de fruta, quer ainda pelo associativismo. Também o solo e o subsolo têm produzido riqueza significativa na área de extracção de argilas importante matéria prima para a indústria da cerâmica de barro vermelho, de louças e porcelanas.

Artesanato e Indústria

O principal ramo artesanal do Juncal foi, e é ainda, a cerâmica. O mais antigo e importante registo escrito ligado a esta actividade remonta ao século XVIII. Trata-se de um documento que refere que por mercê do Marquês de Pombal e pelo dinamismo de um arquitecto de origens no Juncal, se fundou uma grande e fluorescente indústria cuja actividade decorreu entre 1770 e 1876 e que para aqui atraiu de vários pontos do país hábeis artesãos no trabalho do barro.
A Real Fábrica do Juncal como passou a denominar-se, alcançou elevado nível de produção e de prestígio. Clientes de todas as camadas sociais desde clérigos a nobres, almocreves e até simples camponeses, procuravam com ansiedade os produtos desta conceituada fábrica. De S. Martinho do Porto saíram muitas embarcações carregadas de louça do Juncal para o Alentejo, Algarve e outros destinos. Nesta fábrica foram produzidos, entre outros, os painéis de azulejo para a igreja matriz do Juncal, do Convento dos Capuchos, de Alcobaça em 1783, da Igreja dos Milagres, Leiria 1795 e dois registos representando Santo António e Nossa senhora da Piedade, em Rio Maior, 1814. Além dos azulejos produzia louça utilitária e jarras de altar. Sobre as jarras de altar, encontrámos no inventário feito em 1854 aos bens da Igreja da Paróquia de Azoia, uma rubrica onde consta que esta igreja possuí várias jarras de pó de pedra e outra, onde se menciona existirem "14 jarras de louça do Juncal". Esta distinção das jarras atesta  a reconhecida importância que as mesmas já teriam, daí diferenciarem-se no inventário. Esta informação serviu-nos para as procurarmos. Encontraram-se seis, armazenadas num anexo da Capela de Santo António do lugar de Alcogulhe, destinado a arrumos. A fábrica foi fundada por José Rodrigues da Silva e Sousa, que deixou a profissão de arquitecto para se dedicar à indústria da cerâmica.
Alguma semelhança de estilo entre a louça do Juncal com a da Fábrica do Rato em Lisboa deve-se ao facto do Dr. Joaquim Rodrigues, irmão do fundador, ter vindo daquela fábrica para o Juncal, sendo autor dos melhores quadros de azulejaria juncalense.
Dos privilégios concedidos pelo Governo de então ao pessoal desta empresa de carácter industrial e ao mesmo tempo didáctico, ressalta a isenção do serviço militar para os mancebos que nela trabalhassem, como estímulo à aprendizagem e à especialização de gente jovem, da arte da cerâmica.
Este estímulo, para a profissionalização e formação para  o trabalho da cerâmica e outras actividades ligadas à construção civil está a ser retomado através de cursos profissionais a funcionarem no Instituto Educativo do Juncal, nomeadamente os Curso Profissional de Análises Laboratoriais de Química e de Desenho de Construção Civil
CS - COELHO DA SILVA
A Cerâmica de Construção começou a desenvolver-se intensamente a partir da década de trinta do século XX. O interesse por este sector deu-se sobretudo a partir de um agricultor que para dar trabalho aos seus trabalhadores, em épocas do ano em que os trabalhos agrícolas exigiam menos mão de obra, seguiu a ideia que um servo lhe deu de experimentar fazer tijolo da argila existente em algumas propriedades. Da ideia passou-se à prática e ao sucesso, é certo, a custo. Esta actividade veio a ter muitos seguidores nesta freguesia e também na freguesia vizinha de Pedreiras. Este sector foi tratado na tertúlia de Março pelo industrial José Coelho, administrador de uma das maiores e melhores unidades industriais de produção de telha de cerâmica de barro vermelho do país.
É provável que a actividade da cerâmica na região tenha já existido no período da ocupação romana, pois na região foram encontrados vários vestígios, como estelas funerárias e moedas romanas o que significa que aqui houve ocupação deste povo que possuía grandes conhecimentos sobre fornos de cerâmica, quer para consumo local quer para abastecer mercados urbanos. Importa pesquisar no campo e em materiais já recolhidos pesos de tear, etc. que possam ter inscrições.
Contudo, nos últimos anos e no momento presente a indústria da cerâmica quer de construção quer decorativa, atravessa a a pior crise conhecida no sector, tendo encerrado a grande maioria das pequenas e médias empresas que foram criadas, muitas delas em instalações improvisadas em garagens, barracões e quintais sobretudo nas década de setenta e oitenta, quando o sector da cerâmica decorativa registava encomendas elevadas. Com o nascimento de muitas dessas pequenas empresas que não tinham condições técnicas para poderem evoluir e que apenas se limitavam a copiar modelos, não havendo aposta na criação e na inovação, rapidamente o mercado ficou saturado com este tipo de produtos, começando a faltar as encomendas, também por via da concorrência da produção chinesa que faz produtos de idêntica qualidade por preços muito inferiores. Assim, hoje, restam duas ou três empresas de cerâmica de decoração, que tem vindo a reduzir o número de operários. Relativamente à indústria de cerâmica para materiais de construção, idêntico processo se verificou, havendo neste caso uma ou duas grandes empresas que devido à aposta na inovação tem aumentado a sua produção e o seu volume de negócios.
Resina, curtumes, cal, carvão, alfaias agrícolas, ferramentas para resineiros, eram actividades importantes outrora na freguesia do Juncal e que desapareceram.

Floresta

     Um sector económico que ao longo do tempo foi muito importante nesta freguesia foi o florestal. A floresta ocupa ainda hoje uma área significativa do seu território. É composta essencialmente de pinhal e também eucaliptal. A existência de pinhal proporcionou abundância de matéria-prima para o surgimento de serrações de madeira, para a exploração de resina e para a actividade de tanoaria. Hoje, estas actividades ligadas à floresta, por razões várias estão a desaparecer, tendo a tanoaria morrido há várias décadas. Abundavam matas de carvalhos e muitos carvalhos em pés dispersos, que produziam madeira para construção, para mobiliário e sobretudo casca para utilizar na preparação de curtumes. No Juncal, segundo informações e vestígios materiais, existiu uma indústria de curtumes da qual foi encontrada uma mó de pedra para moer a casca de carvalho necessária à preparação dos curtumes e que se encontra actualmente no museu de Porto de Mós.
     Quanto à resinagem, foi uma actividade desenvolvida por muitos juncalenses na região, e por ser uma actividade em expansão até à década de setenta do século XX, levou a que muitos homens saíssem para regiões distantes, onde abundavam pinhais, e aí exerciam o seu trabalho de resineiros entre os meses de Fevereiro a Novembro. Muitos acabaram por se fixar coma sua família definitivamente nesses locais. Ligada a esta actividade estavam várias gerações de famílias. Ainda hoje, há por muitos sítios do País, habitantes cujas raízes se encontram nesta freguesia e que fizeram a sua “diáspora” por causa desta actividade.


Pecuária

     Paralelamente e relacionada com a agricultura e com a indústria quer do barro quer dos curtumes teve grande importância a pecuária, nomeadamente de gado bovino. Estes animais eram necessários para os trabalhos agrícolas, para fazerem girar as galgas dos lagares de azeite, as noras, para transporte de mercadorias e para amassar o barro. Também forneciam algum leite, embora este fosse essencialmente destinado às crias. O gado bovino de aptidão leiteira só se verificou a partir da década de setenta do século XX e na freguesia do Juncal não registou expressão significativa. Mais significativo foi a criação de gado azinino, espécie animal existente praticamente em todos os agregados familiares e em todas as explorações agrícolas, dado a sua utilidade para transporte de mercadorias e de pessoas. O gado equino também existia sobretudo nas famílias mais abastadas, sendo um sinal de prestígio e até um elemento de distinção social. Com o desenvolvimento da maquinaria, sobretudo a partir da segunda metade do século XX, o uso da força animal foi desaparecendo e foi substituída por tractores agrícolas, carrinhas, motores diversos e outras máquinas. Nas décadas de setenta e oitenta do século passado verificou-se o surgimento de algumas pecuárias de média dimensão na produção de suínos, actividade hoje igualmente em decadência e praticamente inexistente.

Árvores de fruto

     As árvores de fruto mais divulgadas até meados do século XX na região, eram as figueiras e os abrunheiros. Além disso, havia alguns pés dispersos de: pereiras, macieiras, nespereiras, marmeleiros,laranjeiras etc. Mais frequentemente duas ou três parreiras armadas sobre umas varas de pau ou vigas de ferro chumbadas na verga da porta de acesso à cozinha em pleno pátio. Estas destinavam-se mais do que produzir frutos, fazer sombra. Decorrente da existência das parreiras junto à casa utilizavam os moradores quando estavam afastados da moradia e pretendiam e despedir-se de alguém a seguinte expressão “ DEIXA-ME IR ATÉ AO MEU PARREIRAL” . Os frutos eram para auto-consumo e para venda nos mercados locais. Os primeiros frutos eram muito bem guardados por que despertavam o apetite, do qual os adolescentes e jovens, sempre atrevidos e ousados, não conseguiam renunciar, e por isso sempre que podiam lhe deitavam a mão. As árvores de fruto eram autóctones e perpetuavam-se ao longo dos tempos. Contudo para melhorar produções e aumentar a diversidade de frutos frequentemente recorria-se às técnicas de enxertia. Muitas vezes, arbustos e árvores “selvagens”através da enxertia obtinham-se boas árvores de fruto. Por exemplo o espinheiro dava excelentes pereiras.
     A partir de meados do século XX, e a partir do centro de Investigação fruteira Vieira de Natividade, com a criação dos pomares de macieiras e pereiras sedeado bem perto de nós, em Alcobaça, dá-se uma transformação na agricultura local. Os pomares passam a ocupar exclusivamente o solo. Há a especialidade cultural. O rendimento destes pomares para o cultivador ultrapassa em muito o dos tradicionais olivais e vinhedos, procedendo-se ao arranque destas culturas permanentes e substituem-se pelos pomares.

Manuel Carvalho (professor de História do Instituto Educativo do Juncal)

Guilherme Stephens – apontamentos para a sua biografia

     Filho ilegítimo de Oliver Stephens, um professor na Cornualha, e de Jane Smith uma serva da propriedade Pentillie, foi educado pelos seus avós em Pillaton. A morte da mulher do seu pai juntou a família, pois aquele, Oliver Stephens, voltou a casar com a sua mãe, Jane Smith. O novo casal mudou-se para Exeter, onde constituiu uma família numerosa. Guilherme terá, então, sido educado na Exeter Free Grammar School.
     Em 1746 terá vindo para Portugal para se juntar ao seu tio Jonh Stephens, um comerciante inglês em Lisboa. No entanto, os negócios do tio faliram, pelo que, em 1752, se juntou a de Jorge Midley , um influente e bem sucedido comerciante inglês em Portugal. Mas, em 1755, o terramoto terá destruído os seus bens e o seu negócio.
     Stephens percebeu de imediato que eram necessários materiais para a reconstrução da cidade, iniciada pelo Marquês de Pombal. Logo em 1756 reinicia a sua actividade industrial com o pedido de Alvará (3 de Novembro) para se estabelecer com uma fábrica de cal no Bairro de Alcântara, utilizando carvão de pedra que mandava vir de Inglaterra, livre de direitos. Em Janeiro de 1758, por ordem da Secretaria de Estado a “Junta de Commercio adiantou outo contos de reiz” por conta da cal fornecida para as obras do Arsenal, das Alfândegas e Praça do Comércio.
     Em 1760, o negócio da cal deixa de ser proveitoso, e dos 16 fornos, apenas 3 continuam em laboração, sendo mesmo assim demasiada a sua produção pelo que, Guilherme, solícita, a D. José I, para baixar o preço do “moio” da cal e, em 15 de Julho de 1761, pede a El-Rei para que lhe ficasse com os fornos para pagamento da dívida que tinha ao Tesouro Real. Os bens da fábrica são, então, penhorados por diversas ocasiões por dívidas. “…tem posto na triste mizeria de vender os móveis da sua casa para sustentar a família que constando de trez irmãos e hua irmã orfaans não tem outro recurço se não no patrocínio e clemência de Vossa Magestade…”
     Em 1764 está inteiramente arruinado devido ao insucesso da sua fábrica de cal. Em 25 de Junho, a Junta mandou socorrê-lo por conta da cal que ia fornecendo. Mas, a 7 de Julho de 1767 foi-lhe, ainda, concedida a prorrogação, por mais 20 anos, da concessão da cal.
     Nos princípios de 1769 Guilherme Stephens adquire a sua primeira fábrica, uma indústria de vidros que, até então, pertencia a John Beare, e que estava localizada na Marinha Grande. Reinaugurada a 7 de Julho daquele ano, logo se começou a fazer sentir a sua forte actividade, aumentando as suas instalações, empregando mais operários e dotando-a com os mais aperfeiçoados maquinismos da época. O Marquês de Pombal, reconhecendo o seu valor, protegeu-o, como óptimo auxiliar na grande empresa de regeneração industrial do País, e concedeu-lhe um empréstimo de 32 contos de réis, sem juros nem limite temporal de pagamento, podendo fazer os pagamentos parciais em cal para obras públicos, a partir dos fornos que ainda possuía em Alcântara. D. José I deu-lhe permissão para gastar a lenha do Pinhal de Leiria, que lhe fosse precisa para a fábrica, durante quinze anos, privilégio que se tornou depois permanente, segundo alvará de 7-VII-1769. Em 1776 o rei declarava, numa nova provisão, que a fábrica ficava sob a imediata protecção do rei, como útil ao bem público, e ao dos pinhais. Esta concessão baseava-se na ideia de que, sendo bem feito e conscienciosamente dirigido, o corte das lenhas, não prejudicava a floresta, antes pelo contrário, limpava os seus ramos secos, que eram os que se permitia cortar.
     Stephens conseguiu, assim, ressuscitar o negócio da cal e desenvolver a manufactura do vidro. Os lucros deste negócio permitiram -lhe construir uma casa apalaçada na Marinha Grande.
Além de promover o desenvolvimento manufactureiro da região, elaborou um programa de assistência social na Marinha Grande. Abriu escolas, organizou um fundo de socorro a doença e um sistema de pensões, fechou as tabernas, introduziu actividades culturais, reorganizou o suprimento de alimentos, e investiu significativamente na evolução da agricultura. Ele acompanhou com interesse os regimes de Thomas Coke de Holkham Hall e transformou a produtividade agrícola na região.
     Apesar de ter sido chegado a Marquês de Pombal, D. Maria I aumentou-lhe os seus privilégios, fazendo mesmo duas visitas reais à Marinha Grande. Em 1792, o príncipe João assumiu as rédeas do poder, confirmando os privilégios conferidos por sua mãe.
     Em 1803 Stephens faleceu na casa da família em Lisboa, deixando a fábrica de vidro para seu irmão, John James Stephens. Com a morte de John James a fábrica de vidro foi cedido ao Governo Português.






http://en.wikipedia.org/wiki/William_Stephens_(glassmaker)
pt.wikipedia.org/wiki/Guilherme_Stephens

sábado, 29 de janeiro de 2011

A Real Fábrica de Vidros da Marinha Grande




Real Fábrica de Vidros da Marinha Grande], ca. 1865?]

SILVA, Francisco Augusto Nogueira da, 1830-1868
[Real Fábrica de Vidros da Marinha Grande] [Visual gráfico / Nogueira da Silva ; [grav.] Alberto. - [S.l. : s.n., ca. 1865?]. - 1 gravura : madeira, p&b. - Data provável baseada no período de actividade dos autores. - Dim. da comp.: 7,5x25,1 cm (Biblioteca Nacional)

A Real Fábrica de Vidros da Marinha Grande surge na sequência do encerramento da manufactura de Coina. A falta de combustíveis nesta região levou John Beare, seu administrador na altura, a transferir, em 1748, a tecnologia de Coina para a Marinha Grande, dada a abundância de matérias-primas, a areia, e de carburante nesta região, a lenha do Pinhal do Rei.
No dicionário geográfico, um manuscrito de 1758 é referido que “ há dentro desta vila e freguesia de Coina uma fábrica real que foy de vidro, a qual se acha damnificada e sem exercício há dês anos a esta parte por se mudar a mesma para o lugar da Marinha, termo da cidade de Leyria, e por este dezamparo se lhe perdem as madeiras que sam excellentes”.[1]
John Beare terá tido dificuldades em manter a unidade manufactureira em laboração. Em 1762, num relatório datado de 9 de Setembro, são descritos todos os problemas resultantes da instalação da Real Fábrica na Marinha.
Nesse relatório é referido uma Resolução Real de 23 de Agosto de 1749 para que fosse extinta a Real Fábrica devido aos grandes estragos ocasionados no Pinhal. A fábrica é acusada de consumir a melhor madeira, numa época em que toda a madeira de boa qualidade era enviada para a Ribeira das Naus, em Lisboa, para ser utilizada na construção naval. Além disso é acusada de ser responsável pela subida do preço pago aos carreiros. Estes preferem trabalhar para a Fábrica por um salário certo do que para o Estado.
Não conseguimos saber qual a data de encerramento da fábrica de Beare. No entanto, pensamos que em 1762 ainda se encontrava a laborar.
Em 1769 a administração da Fábrica é pertença de Stephens. Num documento dos Juízes do Officio de Vidraceiro é referido que apenas é permitido a Stephens “… a venda do dito vidro attacado, como sempre executara o seu antecessor Duarte Campeão”, pelo que é provável que depois de Beare, a Fábrica tenha tido outro(s) administradores .[2]
De facto, foi no ano de 1769 que o rei D. José I, por iniciativa do ministro Marquês de Pombal, chamou à corte o industrial inglês Guilherme Stephens. Nesse mesmo ano a família Stephens instalava-se na Marinha Grande e iniciava a construção da Real Fábrica de Vidros, segundo projecto do próprio Guilherme Stephens. Foi no ano de 1770 que com a colaboração de operários vidreiros vindos de Génova e alguns portugueses, se iniciou a produção de vidro de embalagem e vidraça.
         Marquês de Pombal concedeu-lhe um “ empréstimo de 32 contos de réis, sem juros nem limite de tempo, podendo fazer os pagamentos parciais em cal para obras do Estado, dos fornos que possuía em Alcântara”[3] D. José deu-lhe permissão para “gastar toda a lenha do pinhal do estado, que lhe fosse precisa para a fábrica, durante 15 anos, privilégio que se tornou, depois, permanente, segundo alvará de 7-VII-1769”[4]. Mais tarde, declarou que a fábrica ficava sob protecção real, sendo considerada como útil ao bem público e ao dos pinhais.
         A actividade de Guilherme Stephens repercutiu-se na formação dos empregados, na criação e manutenção de certas estruturas que foram essenciais ao desenvolvimento da Marinha Grande, principalmente vias de comunicação, tendo tido, também, um papel importante no desenvolvimento agrícola. A Fábrica funcionou como uma “escola”, “permitindo aperfeiçoar e consolidar um saber-fazer que, nessa segunda fase (1889-1930), já constituía um forte atractivo para a instalação de novas unidades vidreiras”[5]. Já em 1776 numa reclamação dirigida à Rainha D. Maria I, Guilherme Stephens se queixa da concorrência que lhe é feita pelos alemães que têm lojas de vidro na cidade de Lisboa e afirma que “Os lapidários e floristas do vidro nacionais, que foram ensinados na Fábrica, me certificam que podem lapidar e abrir flores em quanto vidro desta qualidade o Reino precisar; pelo que (…)seria útil proibir-se o despacho, na Alfândega, de todo o vidro que vier de fora do Reino, lapidado ou com flores, exceptuando-se os espelhos e lustros, para a manufactura dos quais a Fábrica ainda não tem oficiais capazes”.[6]
         A Fábrica marinhense vai procurar dificultar a saída dos vidreiros que habilitou, recorrendo ao poder central para que este tome medidas. José Amado Mendes (1993) cita o provedor da comarca de Leiria que, em 1812, declara:”O administrador da Fábrica dos Vidros, situada na Marinha Grande (…) exige de mim, juiz conservador dela, providências prontas contra a ruína que se lhe vai seguir, da deserção que da mesma fazem operários, que se retiram para algumas das semelhantes fábricas edificadas em Lisboa, em virtude de aliciações que por parte destas lhes são feitas (…)”. Nos finais do XIX continuava a ver-se ameaçada pela concorrência quanto à mão-de-obra, agora pelas fábricas instaladas na própria Marinha Grande.
         Após a morte de Guilherme Sephens a fábrica passou a ser administrada pelo seu irmão, João Diogo, que, apesar de algumas dificuldades, nomeadamente durante as invasões francesas, manteve um extraordinário desenvolvimento e progresso. Em 1826, João Diogo faleceu deixou em testamento a Fábrica à “Nação Portuguesa”.
         Demoraria cerca de dois anos até que o governo decidisse que, não tendo capacidade para administrar a Fábrica, iria abrir concurso para a sua exploração. Entre 1827 e 1919 a Fábrica conheceu vários arrendatários e tempos de prosperidade, realizando grandes projectos que desenvolveram tecnologicamente a Fábrica, produzindo vidro de grande qualidade, e períodos de grandes dificuldades, chegando mesmo a encerrar e os trabalhadores terem de procurar emprego na construção de estradas ou limpezas do pinhal.
         Em 1919 o Governo decide iniciar a sua exploração através de Comissões Administrativas. Destaca-se o período (1928-1966) em que a administração esteve a cargo do Engenheiro Acácio Calazans Duarte. Além do grande desenvolvimento tecnológico que deu à Fábrica, passou a ser obrigatório a formação dos aprendizes dos sectores de decoração, pelo menos em desenho e a frequência da escola nocturna da Fábrica, pelos menores analfabetos que ali trabalhavam. 
         A partir de 1954 um novo regulamento reformula a Fábrica, transformando-a num centro de desenvolvimento da indústria vidreira. Passou a designar-se Fábrica Escola Irmãos Stephens. Fabricava cristalaria de qualidade, desenvolveu a vertente artística do vidro, tendo contado com algumas parcerias, entre elas, com a Escola Nacional de Belas Artes. Em 1957 passou a ser superintendida pelo Instituto Nacional de Investigação e em 1977 passaria a Empresa Pública, conhecendo várias administrações até ao seu encerramento em 1992. Em 1993 foi adquirida pelo dinamarquês Jorgen Mortensen e reactivada. Actualmente já não de encontra em laboração.








       Pátio da Fábrica-Escola Irmãos Stephens (FEIS) – Ao fundo o palacete que foi habitado pelos Stephens. À Direita, o edifício dedicado à administração (construções do século XVIII).

Jéssica e Ana Agapito – alunas do 11º ano


[1] http://grandemarinha.blogspot.
[2] Idem
[3] http://visitasvirtuais.orelhas.pt/museuVidro/
[4] Idem
[5] José M. Amado Mendes (1993).  A História da Marinha Grande-Introdução e Perspectivas,  Câmara Municipal da Marinha Grande.
[6] Idem

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

A Real Fábrica de Vidros Cristalinos de Coina



A indústria vidreira em Portugal é anterior à fundação da Real Fábrica da Marinha Grande, pelo inglês Guilherme Stephens, que beneficiou de importante protecção do Marquês de Pombal, nomeadamente subsídios e aproveitamento gratuito da madeira do pinhal do Rei, para aí instalar a manufactura do vidro.
Num jornal do século XIX pode ler-se “A industria do vidro, em Portugal, foi introduzida no século XV, com a fundação de uma pequena fabrica na freguesia de S. Pedro de Villa-Chã, concelho de Oliveira de Azemeis, denominada fabrica do Côvo, pelos annos de 1484. Foi esta fabrica protegida por el-rei D. João II, que lhe deu uma provisão garantindo que não se podesse estabelecer outra fabrica, sem consentimento do dono da primeira, um tal Diogo Fernandes ao que parece. Apesar d´este previlegio, em 1498 estabeleceu-se outra pequena fabrica de vidros em Coina, não se sabe se com consentimento do proprietario da fabrica do Côvo. Esta nova fabrica que a principio pouca produção teve, foi desenvolvendo-se com o andar dos tempos, de modo que em 1580 os seus productos faziam grande concorrencia á fabrica do Côvo, o que obrigou esta a fazer-se valer dos seus antigos previlegios perante D. Affonso.” (http://educa.fc.up.pt).
Forno- escavação arqueolópgica
Desta fábrica de vidros de Coina não encontrámos mais referências. No entanto, sabemos que Jorge Custódio realizou no período entre 1983 e 1990 escavações arqueológicas, em Coina, tendo encontrado vários fornos e um conjunto de vestígios materiais que permitiram reconstituir a produção do vidro nesta localidade. Crê-se tratar-se da Real Fábrica de Vidros Cristalinos fundada por D. João V, em 1719 e que ficou sob administração régia até 1731. A partir desta data até ao seu encerramento em 1747, passou por várias administrações da qual se destaca a do irlandês John Beare, por ter sido no seu tempo que a manufactura foi encerrada em Coina e deslocada para a Marinha Grande, dando origem à tradição vidreira pela qual ficou conhecida esta localidade. A sua instalação em Coina (Barreiro) deveu-se em parte às excelentes condições que o local oferecia: abundância de lenha da Mata da Machada para combustível dos fornos e a pureza das suas areias cauliníferas.
A criação da manufactura vidreira de Coina representava uma tentativa de inovação no contexto da economia do reino, não só porque foi um importante empreendimento, quanto à sua área de implantação (cerca de 4000m2), como pela sua capacidade produtiva, natureza e originalidade dos seus produtos e, ainda, pela mão-de-obra e técnicos estrangeiros especializados na produção do vidro, (italianos, finlandeses, irlandeses, venezianos e alemães) que chegaram a Portugal, recursos que o país não possuía. Estes técnicos formaram uma importante colónia na freguesia e antigo Concelho de Coina.
Fabricou, em três fornos de fusão, vidro branco, vidro verde e chapa de vidro para vidraça e espelho. A frascaria diversa quer comum, quer de laboratório, a garrafaria (entre a qual se encontraram garrafas de tipo inglês para o Vinho do Porto) e o vidro plano pelo processo francês de moldagem em mesa permitem testemunhar o real significado desta manufactura à qual se prende o desenvolvimento moderno do vidro português. Os seus produtos chegaram ao Brasil, à Espanha, à China, concorriam, inclusive, com os vidros ingleses contemporâneos, quando a sua gestão esteve entregue a uma companhia de mercadores britânicos.
         As razões do seu encerramento prenderam-se com questões ligadas a um dos combustíveis que alimentava os fornos do vidro, a madeira, abundante em toda a margem sul e utilizada nas manufacturas da região, desde o abastecimento a Lisboa, à construção naval, aos fornos do biscoito de Vale de Zebro, aos inúmeros fornos de cal existentes que, por si só, eram grandes depredadores dos recursos naturais. De salientar que em Coina também se utilizou pela primeira vez, como combustível, a hulha, importada de Inglaterra. Contra os fornos do vidro esteve o Senado de Lisboa e certamente os interesses locais, pressionando o Monarca para o desfecho que se veio a verificar em 1747. A proximidade do Pinhal de Leiria e a existência de recursos naturais, como as areias siliciosas e argilas, ideais para o fabrico de vidro levaram John Beare, administrador desde 1741, a transferir a Real Fábrica de Vidros de Coina para junto do Pinhal de Leiria, dando assim inicio à implantação desta indústria na Marinha Grande. Até essa altura, a população marinhense dedicava-se principalmente à indústria das madeiras, à manutenção e abate do pinhal.
Depois do encerramento da Real Fábrica de Espelhos e Vidros Cristalinos de Coina e do seu completo desmantelamento, foi instalado no edifício uma pequena indústria de estamparia no último quartel do século XVIII.


Vidro; esmalte policromado Dimensão 14,7 x L. 12,5 cm Inscrição VIVAT JOANNES / V)

Vidro gravado à roda. Dimensão A. 17,6 x L. 7,2 cm, peças do Museu Nacional de Soares dos Reis)

 

Bibliografia

Alunos participantes no Clube