segunda-feira, 28 de março de 2011

Apontamentos Históricos da freguesia do Juncal


Há notícias do seu povoamento pelo menos desde a romanização. Foram encontrados vários vestígios materiais atribuídos a povos deste período, nomeadamente moedas romanas, bigatus e quadrigatus, cunhadas por imperadores de Roma, anteriores e posteriores à época cristã. Também há documentos que provam o povoamento de alguns lugares, nomeadamente Andam e Quinta de São Paio, anterior à fundação de Portugal.
Certamente que estes factores, aos quais se associaram outros, contribuíram para que ainda hoje, seja considerada uma das freguesias mais importantes do concelho.

Achados arqueológicos:

Necrópoles primitivas
Para além dos vestígios romanos, há noticias da destruição de uma necrópole descoberta por trabalhadores rurais no dia 15 de Maio de 1865 no sítio denominado Barreiras Caientas, onde foram encontradas várias ossadas humanas, presumindo-se terem pertencido a populações que viveram na Idade do Ferro. Havia uma laje sob a cabeça de cada esqueleto, e estavam todas voltadas para Este. Num local sobranceiro, à parte, encontrava-se uma sepultura cavada na rocha.
Neste mesmo ano figuraram dois exemplares destes esqueletos na Exposição Internacional, enviados pelo lente da Escola Médica do Porto, Dr. Augusto Luso da Silva, que os recebeu do padre António Pereira Louro, natural da hoje freguesia da Calvaria. Junto às sepulturas estavam pequenos objectos de ferro. Perto apareceram mais algumas ossadas e mais alguns objectos de natureza bélica e de pedra.
Nas investigações que se fizeram até à Ribeira a cerca de 200m viu-se uma grande quantidade de ossadas com as cabeças viradas para Nascente. Formavam um conjunto de ossadas pertencentes a pessoas de várias idades. A área deste achado rondaria os 144m2. Aqui apareceu também uma urna de barro vermelho com 77cm de altura, toda atulhada de ossos e que foi totalmente destruída pela curiosidade popular, na esperança de encontrarem algum tesouro. Junto estava um moinho de mão com 66cm de diâmetro e a um metro de profundidade descobriu-se uma calçada muito bem feita e em excelente estado de conservação, com dois metros de largura, tendo-se desaterrado numa extensão de cerca de 60m, na direcção de N/S, paralela à Ribeira.
Hoje, infelizmente, não são conhecidos estes vestígios.

RELIGIÃO
Principais Locais de Culto:
Igreja Matriz – Edifício oitocentista construído num pequeno morro, virado para nascente. Apresenta um frontispício imponente, digno de apreço e de admiração, mais exuberante e rico a nível escultórico que as igrejas da região à sua volta. No pequeno frontão, por cima do frontispício estava e está bem realçada e avivada a “data” de 1780, o que tem levado, creio por equívoco, a considerar este o ano de conclusão deste templo. Pensamos tratar-se de uma data feita a partir de uma simbologia religiosa que existia e que foi transformada incorrectamente em números. Afirmamos isto porque em 2007, aquando de obras de requalificação deste edifício, nomeadamente no decurso da limpeza e lavagem da pedra e da cal, depois de alertados, tivemos a oportunidade de, através da máquina que elevava o andaime, aproximarmo-nos dos três símbolos, hoje tidos como números, feitos em relevo, de onde não constava o algarismo um, e o primeiro símbolo era igual ao algarismo sete, sendo o segundo símbolo parecido com o algarismo 8, mas maior que o sete e com a bola superior maior que a inferior e um pouco aberta. Também o terceiro símbolo não era nitidamente o número zero.
Apesar das dúvidas do que significaria, mas da certeza que não se tratava de uma data, cometeu-se o erro de tornar a desenhar a data de 1780.
O Interior da Igreja Matriz é constituído por uma só nave com dois altares colaterais. As paredes estão forradas com belos painéis de azulejos feitos na própria terra, na Real Fábrica de Cerâmica do Juncal. A capela mor é majestosa, almofadada, com quatro colunas de mármore, medalhões em relevo pintados a óleo, uma bem trabalhada glória de querubins, molduras e talhas douradas dignas de apreço.
Ainda sobre o pórtico principal, a igreja tem um bom trabalho escultórico representando S. Miguel, padroeiro desta freguesia. Festejado tradicionalmente em 29 de Setembro de cada ano, passou a festejar-se ultimamente em data incerta.
Os festejos duram vários dias e para além da parte religiosa há a parte cultural e recreativa. Os festejos são concorridos por muita população. Os festeiros não se poupam a esforços para em cada ano apresentarem um programa festivo variado e rico em actividades de modo a darem grande brilho às festividades.

Capela de S. Miguel do Peral – Pensa-se que se trata da mais antiga Capela do Juncal, construída no século XVI, no sítio denominado Freireta, onde teve origem, segundo se pensa, o primitivo lugar do Juncal.

Capela particular
Na vila do Juncal existe uma capela particular mandada construir pelo devoto Joaquim Caetano na primeira metade do século XX, (1940-42) dedicada ao sagrado coração de Maria. Sobre a porta principal tem um pequeno painel que diz “Doce Coração de Maria sede a minha salvação”. No cunhal do lado esquerdo tem outra legenda que diz o seguinte “à Santíssima Virgem de Nossa Senhora de Fátima, concebida sem pecado original, como preito de gratidão e amor filial, foi levantada esta capela começada em 13/5/1940. A data da construção não foi ao acaso, mas propositada, por ser o dia e o mês em que se iniciam todos os anos as grandes peregrinações a Fátima e o dia em que se comemora o aparecimento, pela primeira vez, da virgem aos pastorinhos. Também cremos que o ano de 1940, foi escolhido por ser o ano em que o Estado Novo, decidiu fazer com grande pompa as comemorações do tricentenário da Restauração da Independência Portuguesa, tendo-se-lhe associado muita população que em muitas freguesias decidiram erigir pequenos monumentos alusivos ao acontecimento, e que certamente este devoto de Nossa Senhora de Fátima se associou.

Capela em honra de Santo António no Andam – No local onde se encontra a actual Capela, restaurada em 1945, já teria havido uma ermida, e que foi transformada em Capela em 1794. A festa em honra do padroeiro realiza-se no mês de Junho.

Capela de invocação de Nossa Senhora da Piedade – Situa-se no lugar do Chão Pardo, parece que foi construída no século XVI, tem boa talha dourada do século XVII e no exterior a lápide seguinte: “Chão Pardo, esta Capela foi reconstruída pelo povo do lugar em 1965 – O presidente da Comissão António Agostinho Amaro”. A imagem da Pietá em pedra policromada, é uma valiosa obra de Arte Sacra quinhentista, digna de maior apreço, à qual antigamente eram feitas romagens de devotos, vindos de toda a região. Esta imagem foi restaurada na sua pintura em 1868.

Capela de Nossa Senhora do Carmo – Situa-se no lugar de Vale de Água, foi construída em 1744, dedicada a Nossa Senhora do Carmo.

Capela de invocação de São Bento – Situa-se no lugar da Boieira, tem duas belas imagens consideradas quinhentistas, S. Bento e Santa Ana, de pedra policromada. A data de 13-3-1856, existente na pia da sacristia, deverá ser a era da ampliação da Capela.

Capela de Nossa Senhora do Amparo – Situa-se na Cumeira, construída em 1874. Anterior a esta, nas proximidades terá existido outra com a mesma invocação e construída por um particular, na Quinta da Bela Vista em 1720, na qual rezou a primeira missa o Padre Teodoro, natural da Cumeira.

Na quinta de Santo Amaro existem as ruínas duma Capela do século XVII que teve alpendre e era dedicada ao Santo que deu o nome à Quinta.
Capela de Nossa Senhora da Conceição – situa-se nos Casais Garridos, com festa no mês de Maio e restaurada na primeira metade do século XX.

No lugar de Picamilho, foi construída uma Capela cuja lápide exterior tem a seguinte inscrição: “Bênção da primeira pedra em 6/6/1976”.

Usos e costumes
Este povo, mais no passado, mas ainda hoje, associava à Igreja as principais acções de interesse público, social e cultural.
Por exemplo, o velho hábito de no mês de Maio, mês consagrado a Maria, os jovens rapazes e raparigas irem alegremente pelos campos apanharem flores silvestres e verduras diversas para juncarem as ruas dessas perfumadas espécies da natureza, culminava sempre com uma colorida romagem à igreja, onde as raparigas iam levar ofertas dentro de açafates devidamente engalanados com essas flores, entoando cânticos apropriados à circunstância. Repetia-se isto todas as tardes dos Domingos de Maio, e os géneros alimentícios das ofertas eram leiloados logo a seguir à função religiosa, com recitação do terço. Hoje, já não se vê.
Outros símbolos da religiosidade destes povos eram os oito cruzeiros em cantaria, existentes em diversos locais do Juncal, ao pé dos quais se parava, rezava ou cantava, quando por eles passavam os funerais. Actualmente alguns desses cruzeiros já não existem.
Outrora, era também costume os Juncalenses oferecerem oliveiras à Igreja, do rendimento dos quais se tirava o azeite para manter a lamparina da Igreja acesa de noite e de dia, e para as despesas do culto o resto que sobrasse.
Em relação a isto conta-se que há cinquenta anos, apareceu um anúncio emanado das autoridades de Porto de Mós, que dizia ir ser vendido em hasta pública todo o olival do “senhor”, do Juncal. Houve naturalmente grande surpresa e inquietação, principalmente por parte do pároco, padre Benevenuto e confrarias da igreja, que se deslocaram imediatamente a Lisboa para junto de instâncias superiores fazerem anular tal venda, o que foi conseguido graças ao empenho das figuras gradas desta freguesia.
Recentemente, quando se precisou de avultadas verbas para as obras de conservação da Igreja matriz, equacionou a Comissão Fabriqueira, colocar à venda este património antigo da Igreja. A decisão de venda destes imóveis deveu-se não só à necessidade de receitas para a conservação e requalificação da Igreja mas também para a conclusão da Casa de Velório que estava a ser construída em terrenos junto à Igreja e no sítio onde se situava o antigo cemitério da paróquia.


Aspectos Sociais
Apesar de nas últimas décadas com enorme rapidez ocorrerem mudanças muito significativas a todos os níveis na sociedade, nomeadamente mudanças relacionadas e introduzidas com as novas tecnologias de informação e comunicação, com os sistemas económicos e sociais à escala global conjugados com o sistema de ensino, na freguesia do Juncal ainda é possível encontrar testemunhos de modos de vida, tradições, usos e costumes que perduram ao longo dos tempos quase imutáveis, mas que hoje, já não existem fora da memória das suas gentes. A vida quotidiana alterou-se desde logo porque o trabalho no campo tem vindo a diminuir, e porque o trabalho agrícola, realiza-se com menos mão- de -obra, sendo hoje poucas as pessoas que nele tem a sua actividade principal. A diminuição de mão-de-obra agrícola tem diminuído como consequência do abandono da terra e também devido à mecanização. Por consequência, o hábito tradicional de entreajuda entre a vizinhança praticamente desapareceu, a organização da vida da comunidade alterou-se, não se vendo ao contrário de outrora, grupos de homens que se organizavam localmente para várias actividades como, consertarem e melhorarem caminhos, limpar linhas e valas de água, regulamentarem o uso e a partilha de água comum para a rega, a limparem e a construírem fontes, a associarem-se de forma informal em sociedades e organizações como: mútuas de seguro de gado bovino, confrarias de socorro e de enterro dos defuntos, a participarem na tradicional matança do porco, a desenvoverem numerosos trabalhos agrícolas. Os mais idosos recordam com nostalgia histórias desse passado, contando-nos com entusiasmo as suas vivências de crianças, da adolescência e da juventude. Recordam trabalhos que também representavam momentos de divertimento: a descamisada do milho e os costumes a ela associados, a debulha do trigo na eira e as voltas que se davam na mesma em cima do trilho - divertido carrocel - , a preparação dos doces e das filhós para a festa da matança do porco, as canções à desgarrada, as cantigas que ajudavam a aliviar a dureza da ceifa ou da apanha da azeitona e as cantigas que comandavam grupos de cavadores por exemplo na plantação de vinhedos.

Personalidades ilustres
Alguns filhos ilustres honraram o Juncal, lutando pelo seu desenvolvimento e pelo bem-estar dos seus conterrâneos e das gentes da terra onde nasceram. Outros, não sendo daqui naturais, por razões profissionais, aqui se estabeleceram contribuindo decisivamente para o engrandecimento desta terra. Não os podendo mencionar neste trabalho todos seleccionei três: um da área religiosa, outro da área cultural/educativa e outro da área económica.
Padre Benavenuto, era natural de Alburitel, concelho de Ourém, mas paroquiou o Juncal cerca de 40 anos, pelo que se interessou muito por esta terra e por estas gentes. Era um excelente organista e sabido na arte de representar.
Rafael da Fonseca Barreiros Calado, que pelos seus elevados dotes naturais, se destacou nas Artes, nas Letras e em actividades económicas. Foi excelente artista, jornalista, poeta, historiador, agricultor e industrial.
Na sua casa, antigo solar do Correio Mor, reuniu e se encontrava com as mais diversas figuras de relevo do seu tempo, da literatura, história, arqueologia, etnografia etc. Do que deixou escrito destaca-se “Leiria e a Reforma Administrativa. Representação ao governo do Estado Novo –Composto e impresso na tipografia Mendes Barata (Leiria) em 1936; A Fonte Santa; Lenda de Nossa Senhora da Nazaré; Perfil da Condessa d ella Madrastra Del Rei d. Luís I, 1886; e deixou numerosas gravuras de monumentos, paisagens e riquezas do distrito. Divulgando e enaltecendo as potencialidades sócio-económicas e os atractivos de interesse turístico do Juncal, ele interessou-se como ninguém, pela defesa e preservação dum vasto espólio de raro valor arqueológico e etnográfico. Recentemente seu nome foi, muito justamente, atribuído a uma rua do Juncal.

João Coelho da Silva, importante industrial de barro vermelho, tendo sido fundador da fábrica João Coelho e filhos existente no lugar da Cumeira, nesta freguesia e que é hoje, uma das mais modernas e maiores empresas do sector, exportando já uma parte significativa da sua produção para vários países e continentes. Foi distinguido e condecorado por um ex Presidente da República na área empresarial. Além da sua inteligência e ousadia na área do empreendedorismo, revelou-se também como um dos maiores filantropos da região. Muito amigo da sua terra, Juncal, e das suas gentes apoiou materialmente várias instituições públicas que contribuíram e contribuem para o engrandecimento do Juncal, e lutou pelo seu desenvolvimento e pelo bem estar da população. Reconheceu a população a ajuda e o apoio desinteressado deste Homem e homenageou-o com a colocação do seu busto no largo existente junto à sede da Junta de Freguesia.
Além destas personalidades que individualizei, importa referir outros que de forma colectiva se distinguiram, entre eles os cerca de trinta combatentes que tomaram parte na primeira grande guerra, ou recuando duzentos anos no tempo os que devido às
às invasões francesas que atingiram intensamente a freguesia do Juncal, resistiram até à morte, e foram muitos.




segunda-feira, 14 de março de 2011

A Alimentação dos Monges Cistercienses de Alcobaça no século XVIII


            O século XVIII pode ser encarado na vida do Mosteiro de Alcobaça tanto como um período de auge como de decadência, consoante o prisma da análise em que nos colocamos. Em matéria de economia agrícola coincide com a plantação dos vastos olivais da beira Serra dos Candeeiros e com a difusão do milho grosso nas terras de campo da Maiorga, Valado e Cela, assim como na edificação de infra-estruturas de produção e fundação de novas Granjas. Naturalmente, as rendas do Mosteiro ampliam-se, o que se repercute numa abastança e desafogo da vida económica. Em contrapartida, assistia-se a um relaxamento dos costumes, a uma sobreposição do material sobre o espiritual, a um desvio do caminho da humildade imposto na Regra que definia a vida das comunidades cistercienses. O monge farto e ocioso de barriga proeminente não será portanto apenas uma invenção malidecente do liberalismo mais radical.
            Os cistercienses de Alcobaça mantiveram praticamente intactos os seus direitos dominiais, senhoriais e os monopólios sobre os meios de produção. Cobravam os quintos da azeitona (no pé do olival), alhos, cebolas, linho, fruta e uvas brancas (as tintas de cobertura dos vinhos estavam normalmente isentas ou eram pagas na eira); o quarto dos legumes e pão (designação para o trigo, o milho, o centeio, cereais que eram colectados na eira); os dízimos verdes, de sangue e pescarias; a jugada e fogaça de um alqueire de trigo sobre os lavradores; as portagens; os terrados das feiras; a galinha de casaria sobre qualquer fogo (habitação); as maquias de lagares de azeite (dízimo do melhor azeite lavrado); os foros de moinhos e azenhas e das terras de cultura (em pão meado, terçado e quartado e em animais como galinhas, frangos e galos capões, porcos –  porco gordo de quatro arrobas –, carneiros, cera, azeite, vinho, numerário); o montado (bianual) dos porcos – um animal por vintena; a lagarádiga por fabrico do vinho; os direitos sobre as águas e ventos que animavam os moinhos de pão e outros engenhos.
            As rendas da exploração directa associadas aos múltiplos foros garantiam a autarcia do Mosteiro e permitiam ainda negociar os excedentes, assegurando uma interessante rede comercial.

Refeitório do Mosteiro de Alcobaça

            O que comem os monges reflecte, em grande medida, as posses da comunidade, o seu estatuto social e os princípios ideológicos que a norteiam. Vamos então observar os produtos que chegavam à mesa monástica.
            Começamos pelo pão e para não haver confusões falamos de pão de trigo alvo, dado que o povo dos coutos consumia um pão negro em virtude da fraca taxa de peneiração, que irá ser substituído pela broa de milho. Aliás, o pequeno pão ou merendeira, designado por micha, que os monges distribuíam diariamente aos pobres na portaria do Mosteiro e junto às Granjas, era constituído, essencialmente, de farinha de milho, algum centeio e rolão de trigo (desperdício do pão consumido pelos monges).
            A carne que chegava à cozinha do Mosteiro não provinha toda de animais criados nas terras dos coutos de Alcobaça. A falta de pastos condicionava a criação de gado bovino. Durante o século XVIII, a maior parte dos animais de trabalho e açougue eram importados do Minho. A inexistência de vacas leiteiras obrigava o Mosteiro a adquirir barris de manteiga para abastecer a sua requintada cozinha. Já os rebanhos de ovinos do Mosteiro provinham em grande parte da região transmontana. A cozinha recebia grande quantidade de galinhas e frangos. De Maio de 1747 a 1748 regista-se a entrada de 7.788 galinhas e 519 frangos. Para igual período de tempo temos um consumo de 51.589 ovos. Por seu turno, a coelheira do Mosteiro, uma das maiores da Europa, abrigava cerca de 6.000 animais. Para além dos animais de criação, a gastronomia monástica era prendada por variadas peças de caça, entre as quais se contam coelhos e patos bravos, perdizes, codornizes, galinholas e ades (designação genérica atribuída às aves palmípedes). No lote de aquisições da cozinha do Mosteiro encontram-se lombos de porco, pedaços de toucinho, presuntos, enchidos, como as morcelas de Arouca, paios, leitões para assar, entre outros acepipes.
            O peixe fresco consumido pelos monges provinha dos portos da Pederneira e de Peniche. Temos referências a cambadas de chernes, pargos, congros, corvinas, robalos, besugos, pescadas, sardinhas. Para além do peixe fresco, o Mosteiro adquiria pescada seca de Vila do Conde e de destinos mais longínquos, como a Holanda e a Irlanda, cação de Buarcos, grandes quantidades de bacalhau… Sáveis, enguias e lampreias, muitas lagostas e amêijoas, polvos e lulas, entravam regularmente na dieta alimentar dos monges brancos.
            No capítulo dos queijos, ao requeijão e queijo fresco produzido nas queijarias locais, juntavam-se os queijos importados do Alentejo, de Parma, Flandres.
            O vinho que acompanhava as refeições era produzido nas adegas do Mosteiro. Trata-se de um vinho produzido pelo método de bica aberta, temperado com maçãs camoesas, cascas de laranja e arrobe, cujo grau e sabor frutado cativou tantos e ilustres visitantes. Estima-se num quartilho (0,5 l) a quantidade de vinho ingerida a cada refeição pelos monges, mas este quantitativo podia ser mais elevado, dado que os copos em que se servia o vinho levavam bem, na opinião do Marquês de Fronteira e Alorna, meia canada  (1 l).
            As árvores de fruto tão acarinhadas pelos monges nos seus jardins e pomares repartem-se em frutos de caroço, pevide e espinho. Temos as maçãs camoesas e baionesas eleitas nos foros, as doces laranjas da China, ginjas, cerejas, damascos, figos, pêssegos e ameixas e nos frutos agros, as limas e limões. Para além da fruta fresca, o consumo também privilegiava as frutas secas, nomeadamente as passas de camoesas e peras de almíscar aparadas, de ameixas caragoçanas, etc.

Cozinha do Mosteiro de Alcobaça (século XVIII)

            A doçaria está bem representada pelas extraordinárias compras de açúcar, arroz e leite indispensáveis ao arroz doce e manjar branco, pelos barris de manteiga, pelos inúmeros ovos, por arrobas de amêndoa (de Torres Novas), por chocolate… As artes da doçaria e conserva requisitavam grandes quantidades de peras, laranjas, pêssegos, cidras, abóboras e figos. A pêra e a abóbora cobertas eram consumidas em épocas festivas. Importavam-se bolos de Almoster, queijadas... A indústria apícola facultava o mel de tão grande utilidade no receituário de doces e também noutros pratos requintados e bebidas fermentadas.



António Maduro

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

São Bernardo (c.1090-1153)



São Bernardo nasceu em 1090, no castelo de Fontaine perto de Dijon, França.
A sua figura marcou a história religiosa e cultural. Possuiu uma fé inabalável em Cristo e um espírito combativo e persistente nas causas em que acreditava.
O seu poder como condutor dos homens residia numa verdadeira e genuína convicção naquilo que defendia: o regresso a uma religião de autenticidade e ascese mística, vivida no mais rígido voto de pobreza e desprendimento dos bens materiais.
Para alcançar a verdade em Deus, não se poupou a sacrifícios. Em 1112 decide fazer-se monge em Cister, levando consigo alguns dos irmãos e numerosos companheiros. Nos primeiros tempos em Cister sujeitou-se a violentas mortificações e autoflagelações que o levaram a contrair a doença que o martirizou toda a sua vida e acabou por o vitimar. Foi nesse período de penitência e sacrifício que começou a ser beneficiado por visões e graças místicas extraordinárias.
Foi um revolucionário no sentido de libertador e reformador; um rebelde pois viu-se na condicionalidade de enfrentar o poder, dentro e fora da igreja; foi um visionário já que se adiantou ao seu tempo escrevendo coisas que encontraremos mais tarde nos místicos dos séculos XVI-XVII; foi também um exemplo, pois fez da sua vida um monumento à fé cristã, traçando planos e projectos, elaborando escritos e sermões, desenhando e estruturando ideias dentro da sua própria ordem.  
Esta actividade editorial e a imensa obra intelectual que nos deixou, valeram-lhe o título de Doutor de Igreja.
O Papa Pio XII apelidou-o de “o último dos Padres da Igreja, e não o menor”.
A 20 de Agosto de 1153, São Bernardo morre em Claraval.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A Alimentação no Juncal até meados do século XX

A alimentação das pessoas destas aldeias foi durante muito tempo confeccionada com produtos da terra, cultivados nas hortas familiares, para utilização e consumo imediato, ou cereais e leguminosas colhidas na safra anual e depois de secos conservados.
Os principais produtos hortícolas eram as batatas, cebolas, alhos, couves, nabos, ervilhas, abóboras, favas e chícharos. Sobre os chicharos vale a pena fazer referência -as gerações mais novas não sabem o que é -, leguminosa muito cultivada no período da conquista de terra, tinha grande valor na alimentação humana e animal, muito usado para engordar porcos e para alimentar animais de trabalho, nomeadamente quando em épocas de maior esforço. Após a conquista de terra, com o início da mecanização e surgimento das rações industriais a sua cultura deixou de se fazer, tendo desaparecido quase por completo. Hoje, para recuperar esta leguminosa e voltar a introduzi-la na alimentação humana fazem-se festivais gastronómicos do Chícharo, como tem acontecido todos os anos a partir de finais de 2006, perto de Fátima, na freguesia de Santa Catarina da Serra, concelho de Leiria e em Alvaiázere, onde se juntam dezenas de milhar de pessoas para provarem pratos diversos confeccionados a partir do Chícharo.
Das leguminosas o feijão era a mais importante, logo seguido da grão-de-bico. A propósito do feijão dizia-se “casa onde haja azeite, couves, broa e feijão, não entra a fome”. Comiam-se feijões depois de secos e quando não estavam maduros, em verde. Esta variedade para ser mais produtiva, após estarem as plantas nascidas, colocavam-se canas que serviam de tutores às quais as plantas se enrolavam e trepavam.
As leguminosas eram colocadas a secar na eira e quando estavam secas eram malhadas por homens com manguais. As ervilhas e favas só se cozinhavam para alimentação humana antes de atingirem a alimentação. Secas, eram para alimentação animal.
Sem rigor de classificação, semeavam-se dois tipos de ervilhas: as de grão em que só o grão era aproveitado e as ervilhas de quebrar, cujas vagens era espalmada e cujos grãos não atingiam o mesmo tamanho das outras ervilhas e era cozinhada e comida a própria vagem.
Cereais: Mais importante o milho, mas também o trigo. A aveia e a cevada eram semeados para obtenção de grão para alimentar animais e sobretudo para forragem. O centeio pouco semeado, semeava-se quando a reserva de pastos secos para os animais era insuficiente para garantir a sua alimentação. Mais temporão que as outras forragens evitava a fome dos animais.
As batatas também tiveram muita importância na alimentação humana. Originárias da Cordilheira do Perú e do Chile, só chegaram à Europa a partir da segunda metade do século XVI. A cultura da batata tanto se fazia em solos onde havia água para irrigação como também em algumas terras de sequeiro. Cultivava-se na melhor terra, que ás vezes também em cultura sucessiva, era cultivada com milho. A importância da batata na economia doméstica das populações resultava ainda de se poderem conservar ao longo do ano até à colheita seguinte sem grandes técnicas.
As sobras dos produtos alimentares eram vendidas nas feiras e mercados das vilas industrializadas próximas como, Porto de Mós, Batalha e Alcobaça. Transportadas em Carroças ou no dorso das bestas. Mais tarde vendidas a grossistas à porta.
O milho veio a ter muita importância. Originário do México, o milho chegou à Europa depois do descobrimento da América. Da farinha do milho fazia-se a broa que acompanhada com algum conduto, queijo, azeitonas, toucinho e chouriça, ou colocada sob a forma de miolos na sopa, era o principal suporte alimentar destas populações.
As famílias rurais e camponesas, mesmo as que tinham mais dificuldades económicas, agricultando alguns pedaços de terra, vivendo em autarcia, tinham sempre com que fazer uma refeição, melhor ou pior.
O toucinho da matança do porco, era parcimoniosamente administrado para durar o ano inteiro. Estava na salgadeira, conservado em sal. As famílias mais pobres e as mais numerosas, na época da matança do porco trocavam os presuntos obtidos do seu animal pelo toucinho do porco das famílias mais poderosas economicamente e cuja qualidade de vida lhes permitia outros mimos e outra qualidade de carne. Satisfaziam-se os mais carenciados com a troca pois exclamavam: “trocamos carne com osso por carne sem osso e ficámos com maior quantidade”. O porco que se matava engordava-se com restos da cozinha “lavadura”, bolota, figos, bagaço de azeitona, beterrabas, abóboras e um pouco de milho. Dava-se “lavadura”, despejada na pia do porco, escavada num monólito de pedra.
Papas
As papas feitas essencialmente à base de farinha de milho, era outro alimento que assumia papel importante na alimentação dos habitantes desta região. Gente com poucos recursos e muito laboriosa, não lhes sobrava tempo para confeccionar comida muito elaborada, nem muitas vezes os ingredientes estavam à mão para isso. Daí o recurso frequente às papas.
Concluindo, diríamos que os produtos da terra resultantes do trabalho familiar eram a base da alimentação. A gastronomia era pobre. O consumo de carne era baixo e pouco variado. A carne de porco que se matava era o conduto para o ano inteiro. Exceptuava-se uma ou outra galinha que se matava quando algum familiar estava doente ou nalgum dia festivo, algum quinhão de carne de vaca que cabia a cada associado da mútua quando morria um bovino de morte súbita ou acidente e da carne de cabra quando se participava em bodas, como por exemplo casamentos.
Os próprios animais eram alimentados com os produtos da terra, assim se reforçavam a autarcia familiar doméstica em que viviam as populações.

Cozedura da Broa

Peneirar a farinha para a massadeira
As tarefas em que tal prática se desdobrava eram realizadas numa sequência rigorosamente respeitada.
       A cozedura da broa era uma actividade exclusivamente pertencente à mulher, podendo o homem colaborar na preparação da lenha para o aquecimento do forno. Actividade que se fazia semanalmente, a mulher recebia a farinha do grão, que havia dias antes mandado no “taleigo” ao moleiro cuja unidade de transformação eram os moinhos de água e de vento. Peneirava-a directamente para o alguidar de barro. A farinha era escaldada com água a ferver. Depois, deixava-se arrefecer. Então, amassava-se juntando água morna e adicionando sal que previamente se derretera em água numa tigela. Adicionava-se fermento em apropriada quantidade. Ao amassar, juntava-se um pouco de farinha de trigo para que a broa não ficasse quebradiça e a esfarelar-se. Assim a broa ficava mais macia. Depois de assim amassada a massa era composta no alguidar, era-lhe dada a forma arredondada que se afagava ligeiramente com as mãos e era polvilhada com farinha. A massa levedava dentro de um grande alguidar de barro colocado na lareira, com branda fogueira acesa, e coberta com um pano branco. No Inverno era também tapada com a ajuda de um cobertor. No topo da massa era sempre desenhada, com um dedo, uma cruz ao mesmo tempo que era dita uma pequena oração “Deus te levede em pão”. Seguidamente a mulher tendia-a e metia-a no forno. Muitas vezes o fermento era pedido à vizinhança. O forno deveria estar bem quente ao mesmo tempo que a massa estivesse levedada.
A massa é benzida para levedar
 O forno aquecia-se com lenha miúda, geralmente com os galhos mais miúdos dos ramos de oliveira e de outras árvores e arbustos autóctones que se haviam cortado e posto no curral para as cabras se alimentarem das folhas. A parte que não era comida era colocada no espaço destinado a armazenar a lenha e depois era colocada no forno. O fornecimento da lenha ao forno era controlado com a forma como decorria o levedar da massa, dado ser necessário a existência do sincronismo entre uma coisa e outra. Para compor o lume no forno, ora chegando neste a lenha mais para um lado ou para o outro de modo a distribuir homogeneamente a temperatura dentro do forno, usava-se um rodo. O rodo era constituído por uma vara de pau com cerca de dois metros de comprimento com uma pequena tábua, com cerca de 50cm de comprimento, pregada numa das extremidades. Com este rodo também se puxavam as brasas e acinza do interior do forno para a boca quando se verificasse que a temperatura era a ideal.
A broa é cozida no forno a lenha
Para limpar o lastro do forno atava-se à pá do rodo um pano velho molhado para se lhe agarrarem as cinzas. A temperatura do forno era determinada por estimativa, a partir da cor da abóbada interior do forno feita de cerâmica.
Cozer pão era um saber transmitido de mães para filhas ainda adolescentes.
Hoje, uma moradia moderna não dispensa a existência de um belo forno, no entanto a sua utilização é reduzida não só por ser mais cómodo adquirir o pão ao padeiro que diariamente o deixa à porta, ou adquiri-lo em cafés e pastelarias, mas principalmente porque as donas de casa não sabem amassar e cozer pão. O forno é assim mais um equipamento decorativo.

Matança do Porco

Ligadas à matança do porco, estava um conjunto de tarefas que eram sempre e rigorosamente respeitadas.
Cerca de quinze dias antes, cortavam-se os tojos ou preparava-se a caruma com os quais se chamuscava os pêlos do porco a fim de os eliminar, actividade que se realizava logo após a morte do animal. Três ou quatro dias antes convidavam-se os familiares e amigos mais próximos para a matança que era antes de tudo um encontro familiar. Na véspera,  não se dava a ceia ao porco para que os intestinos estivessem vazios e mais fáceis de lavar. A propósito da falta da ceia ao porco contava-se frequentemente às crianças uma pequena história: ”Dizia-se que o burro que vivia no curral ao lado do chiqueiro do porco era, por este, muitas vezes gozado. O porco gabava-se de levar uma vida regalada, sem nada fazer e a quem era fornecida boa alimentação, enquanto o burro tinha de executar tarefas duras e transportar cargas pesadas, sujeitando-se ao frio à chuva e ao calor, por vezes mal alimentado. O burro por ter aprendido com a experiência ia dizendo ao porco que aguardasse o dia em que não lhe fosse fornecida ceia e que o dia seguinte seria o fim da sua vida”. Começavam-se os preparativos para a festa, nomeadamente cozer a broa e fazer as filhós. Limpavam-se os utensílios, que há um ano não eram usados, como o xambaril, a salgadeira, o tabuleiro de madeira para colocar as tripas, a bexiga e o estômago (buxo) quando se procedia à abertura do animal.
Às vezes, após se ter procedido à marcação da matança e feitos os convites verbalmente, havia a necessidade de alterar a calendarização deste acontecimento. Tratando-se geralmente de matar porcas reprodutoras (Refugo) e,  se por ventura lhes chegasse o cio nas vésperas, não se procedia ao abate por dizerem que a carne ficava com outro sabor. Evitava-se sempre que  possível esta situação.
O porco é amarrado pelo chamaril a uma viga da despensa
Não havia o hábito de matar porcos machos, pela razão que não os havia. Geralmente na aldeia havia um produtor que possuía o varrasco que era alugado aos possuidores de porcas reprodutoras. Ao contrário de regiões vizinhas aqui não era o varrasco que se deslocava às suas “clientes”, mas era a fêmea que o visitava.
A porca era morta geralmente por asfixia. A porca saía do chiqueiro para o pátio, onde vários homens a agarravam e a derrubavam sobre mato de caruma com os membros para cima. Dois homens agarravam  as mãos do animal e colocavam-lhe o joelho no pescoço. Outros dois homens agarravam  as patas. Durante dez minutos assim permanecia o animal até que se concluísse que estava morto.
Seguidamente ateava-se o fogo ao tojo seco ou à caruma e, com uma forquilha, um dos homens ia passando com a chama sobre o animal enquanto os outros com facas velhas iam raspando o pêlo. Após este trabalho colocava-se a porca sobre uma bancada de madeira improvisada e lavava-se,  utilizando-se para esfregar a pele pedaços de telha de canudo de barro. Ficava impecavelmente limpa e “fazia-se o cu” . Este trabalho era feito por um homem mais especializado nesta tarefa que geralmente o fazia em todas as matanças onde ia. "Fazer o cu" consistia em abrir um circulo à volta do ânus do animal, a fim de poder atar com  um fio  o fim do intestino grosso para evitar que as fezes saíssem e sujassem o porco. Colocava-se o chambaril nas patas entre o nervo do pezunho e o xispo. Pelo chambaril se amarrava o porco a uma viga da despensa. De cabeça para o soalho, a cerca de trinta cm do mesmo, procedia-se à abertura. Tiradas as tripas,  as mulheres cortavam-nas em dimensões semelhantes e lavavam-nas muito bem. Estando lavadas eram colocadas num recipiente com sal, casca de limão e cebola onde permaneciam até ao dia em que se enchiam com carne e se faziam as chouriças.
O porco ficava aberto um dia a enxugar e no dia seguinte fazia-se o desmancho. Preparavam-se os presuntos. Quando se estava a abrir o porco todos os internvenientes da festa iam ver a espessura do toucinho. Quanto mais grossura tivesse melhor. Batia-se com uma mão na "manta" de toucinho do porco e exclamava-se “ Um cento como este!”.
Com o fígado e com o bofe fazia-se o prato mais esperado para a festa da matança e que se designava por cachola. Além deste prato havia sopa de grão de bico com batata e couve. Alguns frutos e filhós. Assim terminava a festa da matança, ficando para os dias seguintes a distribuição aos mais próximos da morcela.

Manuel Carvalho - Professor de História do Instituto Educativo do Juncal

sábado, 5 de fevereiro de 2011

A Economia do Juncal ao Longo dos Tempos

Agricultura
      A nível económico apesar da agricultura nas últimas décadas estar a passar por algumas dificuldades e muitas explorações agrícolas estarem a desaparecer, a freguesia do Juncal é a freguesia do concelho de Porto de Mós, que regista segundo os dados do último recenseamento agrícola (2009), o maior número de explorações agrícolas e aquela onde algumas explorações têm vindo a aumentar a área agrícola a fim de terem viabilidade económica. É também a freguesia do concelho onde algumas explorações (poucas) praticam hoje, uma agricultura virada para o mercado, no ramo da fruticultura explorada segundo o modelo capitalista, enquanto nas outras freguesias se está novamente a verificar uma agricultura de subsistência e de autoconsumo, ao mesmo tempo que se está a praticar uma agricultura de lazer que visa complementar o rendimento familiar obtido nos sectores secundário e terciário  e ao mesmo tempo a valorização ambiental. A população que trabalha na agricultura é predominantemente idosa e fá-lo não tanto por viabilidade económica desta actividade mas por afectos à terra e respeito pelos que da terra fizeram o seu modo de vida, que com enorme esforço a conquistaram e que a todo o custo a mantiveram e quiseram deixar como herança aos vindouros. Hoje, a terra agrícola  representa mais que um bem económico. Representa também um valioso património social e cultural.  Contudo, na freguesia do Juncal,  a importância que a agricultura sempre teve ao longo da sua história é ainda visível nos nossos dias sobretudo no sector frutícola, actividade, que nos lugares do Andam e Casal do Alho têm maior expressão e visibilidade quer através dos pomares existentes e cuidados, quer pelos vários armazéns privados de conservação de fruta, quer ainda pelo associativismo. Também o solo e o subsolo têm produzido riqueza significativa na área de extracção de argilas importante matéria prima para a indústria da cerâmica de barro vermelho, de louças e porcelanas.

Artesanato e Indústria

O principal ramo artesanal do Juncal foi, e é ainda, a cerâmica. O mais antigo e importante registo escrito ligado a esta actividade remonta ao século XVIII. Trata-se de um documento que refere que por mercê do Marquês de Pombal e pelo dinamismo de um arquitecto de origens no Juncal, se fundou uma grande e fluorescente indústria cuja actividade decorreu entre 1770 e 1876 e que para aqui atraiu de vários pontos do país hábeis artesãos no trabalho do barro.
A Real Fábrica do Juncal como passou a denominar-se, alcançou elevado nível de produção e de prestígio. Clientes de todas as camadas sociais desde clérigos a nobres, almocreves e até simples camponeses, procuravam com ansiedade os produtos desta conceituada fábrica. De S. Martinho do Porto saíram muitas embarcações carregadas de louça do Juncal para o Alentejo, Algarve e outros destinos. Nesta fábrica foram produzidos, entre outros, os painéis de azulejo para a igreja matriz do Juncal, do Convento dos Capuchos, de Alcobaça em 1783, da Igreja dos Milagres, Leiria 1795 e dois registos representando Santo António e Nossa senhora da Piedade, em Rio Maior, 1814. Além dos azulejos produzia louça utilitária e jarras de altar. Sobre as jarras de altar, encontrámos no inventário feito em 1854 aos bens da Igreja da Paróquia de Azoia, uma rubrica onde consta que esta igreja possuí várias jarras de pó de pedra e outra, onde se menciona existirem "14 jarras de louça do Juncal". Esta distinção das jarras atesta  a reconhecida importância que as mesmas já teriam, daí diferenciarem-se no inventário. Esta informação serviu-nos para as procurarmos. Encontraram-se seis, armazenadas num anexo da Capela de Santo António do lugar de Alcogulhe, destinado a arrumos. A fábrica foi fundada por José Rodrigues da Silva e Sousa, que deixou a profissão de arquitecto para se dedicar à indústria da cerâmica.
Alguma semelhança de estilo entre a louça do Juncal com a da Fábrica do Rato em Lisboa deve-se ao facto do Dr. Joaquim Rodrigues, irmão do fundador, ter vindo daquela fábrica para o Juncal, sendo autor dos melhores quadros de azulejaria juncalense.
Dos privilégios concedidos pelo Governo de então ao pessoal desta empresa de carácter industrial e ao mesmo tempo didáctico, ressalta a isenção do serviço militar para os mancebos que nela trabalhassem, como estímulo à aprendizagem e à especialização de gente jovem, da arte da cerâmica.
Este estímulo, para a profissionalização e formação para  o trabalho da cerâmica e outras actividades ligadas à construção civil está a ser retomado através de cursos profissionais a funcionarem no Instituto Educativo do Juncal, nomeadamente os Curso Profissional de Análises Laboratoriais de Química e de Desenho de Construção Civil
CS - COELHO DA SILVA
A Cerâmica de Construção começou a desenvolver-se intensamente a partir da década de trinta do século XX. O interesse por este sector deu-se sobretudo a partir de um agricultor que para dar trabalho aos seus trabalhadores, em épocas do ano em que os trabalhos agrícolas exigiam menos mão de obra, seguiu a ideia que um servo lhe deu de experimentar fazer tijolo da argila existente em algumas propriedades. Da ideia passou-se à prática e ao sucesso, é certo, a custo. Esta actividade veio a ter muitos seguidores nesta freguesia e também na freguesia vizinha de Pedreiras. Este sector foi tratado na tertúlia de Março pelo industrial José Coelho, administrador de uma das maiores e melhores unidades industriais de produção de telha de cerâmica de barro vermelho do país.
É provável que a actividade da cerâmica na região tenha já existido no período da ocupação romana, pois na região foram encontrados vários vestígios, como estelas funerárias e moedas romanas o que significa que aqui houve ocupação deste povo que possuía grandes conhecimentos sobre fornos de cerâmica, quer para consumo local quer para abastecer mercados urbanos. Importa pesquisar no campo e em materiais já recolhidos pesos de tear, etc. que possam ter inscrições.
Contudo, nos últimos anos e no momento presente a indústria da cerâmica quer de construção quer decorativa, atravessa a a pior crise conhecida no sector, tendo encerrado a grande maioria das pequenas e médias empresas que foram criadas, muitas delas em instalações improvisadas em garagens, barracões e quintais sobretudo nas década de setenta e oitenta, quando o sector da cerâmica decorativa registava encomendas elevadas. Com o nascimento de muitas dessas pequenas empresas que não tinham condições técnicas para poderem evoluir e que apenas se limitavam a copiar modelos, não havendo aposta na criação e na inovação, rapidamente o mercado ficou saturado com este tipo de produtos, começando a faltar as encomendas, também por via da concorrência da produção chinesa que faz produtos de idêntica qualidade por preços muito inferiores. Assim, hoje, restam duas ou três empresas de cerâmica de decoração, que tem vindo a reduzir o número de operários. Relativamente à indústria de cerâmica para materiais de construção, idêntico processo se verificou, havendo neste caso uma ou duas grandes empresas que devido à aposta na inovação tem aumentado a sua produção e o seu volume de negócios.
Resina, curtumes, cal, carvão, alfaias agrícolas, ferramentas para resineiros, eram actividades importantes outrora na freguesia do Juncal e que desapareceram.

Floresta

     Um sector económico que ao longo do tempo foi muito importante nesta freguesia foi o florestal. A floresta ocupa ainda hoje uma área significativa do seu território. É composta essencialmente de pinhal e também eucaliptal. A existência de pinhal proporcionou abundância de matéria-prima para o surgimento de serrações de madeira, para a exploração de resina e para a actividade de tanoaria. Hoje, estas actividades ligadas à floresta, por razões várias estão a desaparecer, tendo a tanoaria morrido há várias décadas. Abundavam matas de carvalhos e muitos carvalhos em pés dispersos, que produziam madeira para construção, para mobiliário e sobretudo casca para utilizar na preparação de curtumes. No Juncal, segundo informações e vestígios materiais, existiu uma indústria de curtumes da qual foi encontrada uma mó de pedra para moer a casca de carvalho necessária à preparação dos curtumes e que se encontra actualmente no museu de Porto de Mós.
     Quanto à resinagem, foi uma actividade desenvolvida por muitos juncalenses na região, e por ser uma actividade em expansão até à década de setenta do século XX, levou a que muitos homens saíssem para regiões distantes, onde abundavam pinhais, e aí exerciam o seu trabalho de resineiros entre os meses de Fevereiro a Novembro. Muitos acabaram por se fixar coma sua família definitivamente nesses locais. Ligada a esta actividade estavam várias gerações de famílias. Ainda hoje, há por muitos sítios do País, habitantes cujas raízes se encontram nesta freguesia e que fizeram a sua “diáspora” por causa desta actividade.


Pecuária

     Paralelamente e relacionada com a agricultura e com a indústria quer do barro quer dos curtumes teve grande importância a pecuária, nomeadamente de gado bovino. Estes animais eram necessários para os trabalhos agrícolas, para fazerem girar as galgas dos lagares de azeite, as noras, para transporte de mercadorias e para amassar o barro. Também forneciam algum leite, embora este fosse essencialmente destinado às crias. O gado bovino de aptidão leiteira só se verificou a partir da década de setenta do século XX e na freguesia do Juncal não registou expressão significativa. Mais significativo foi a criação de gado azinino, espécie animal existente praticamente em todos os agregados familiares e em todas as explorações agrícolas, dado a sua utilidade para transporte de mercadorias e de pessoas. O gado equino também existia sobretudo nas famílias mais abastadas, sendo um sinal de prestígio e até um elemento de distinção social. Com o desenvolvimento da maquinaria, sobretudo a partir da segunda metade do século XX, o uso da força animal foi desaparecendo e foi substituída por tractores agrícolas, carrinhas, motores diversos e outras máquinas. Nas décadas de setenta e oitenta do século passado verificou-se o surgimento de algumas pecuárias de média dimensão na produção de suínos, actividade hoje igualmente em decadência e praticamente inexistente.

Árvores de fruto

     As árvores de fruto mais divulgadas até meados do século XX na região, eram as figueiras e os abrunheiros. Além disso, havia alguns pés dispersos de: pereiras, macieiras, nespereiras, marmeleiros,laranjeiras etc. Mais frequentemente duas ou três parreiras armadas sobre umas varas de pau ou vigas de ferro chumbadas na verga da porta de acesso à cozinha em pleno pátio. Estas destinavam-se mais do que produzir frutos, fazer sombra. Decorrente da existência das parreiras junto à casa utilizavam os moradores quando estavam afastados da moradia e pretendiam e despedir-se de alguém a seguinte expressão “ DEIXA-ME IR ATÉ AO MEU PARREIRAL” . Os frutos eram para auto-consumo e para venda nos mercados locais. Os primeiros frutos eram muito bem guardados por que despertavam o apetite, do qual os adolescentes e jovens, sempre atrevidos e ousados, não conseguiam renunciar, e por isso sempre que podiam lhe deitavam a mão. As árvores de fruto eram autóctones e perpetuavam-se ao longo dos tempos. Contudo para melhorar produções e aumentar a diversidade de frutos frequentemente recorria-se às técnicas de enxertia. Muitas vezes, arbustos e árvores “selvagens”através da enxertia obtinham-se boas árvores de fruto. Por exemplo o espinheiro dava excelentes pereiras.
     A partir de meados do século XX, e a partir do centro de Investigação fruteira Vieira de Natividade, com a criação dos pomares de macieiras e pereiras sedeado bem perto de nós, em Alcobaça, dá-se uma transformação na agricultura local. Os pomares passam a ocupar exclusivamente o solo. Há a especialidade cultural. O rendimento destes pomares para o cultivador ultrapassa em muito o dos tradicionais olivais e vinhedos, procedendo-se ao arranque destas culturas permanentes e substituem-se pelos pomares.

Manuel Carvalho (professor de História do Instituto Educativo do Juncal)

Guilherme Stephens – apontamentos para a sua biografia

     Filho ilegítimo de Oliver Stephens, um professor na Cornualha, e de Jane Smith uma serva da propriedade Pentillie, foi educado pelos seus avós em Pillaton. A morte da mulher do seu pai juntou a família, pois aquele, Oliver Stephens, voltou a casar com a sua mãe, Jane Smith. O novo casal mudou-se para Exeter, onde constituiu uma família numerosa. Guilherme terá, então, sido educado na Exeter Free Grammar School.
     Em 1746 terá vindo para Portugal para se juntar ao seu tio Jonh Stephens, um comerciante inglês em Lisboa. No entanto, os negócios do tio faliram, pelo que, em 1752, se juntou a de Jorge Midley , um influente e bem sucedido comerciante inglês em Portugal. Mas, em 1755, o terramoto terá destruído os seus bens e o seu negócio.
     Stephens percebeu de imediato que eram necessários materiais para a reconstrução da cidade, iniciada pelo Marquês de Pombal. Logo em 1756 reinicia a sua actividade industrial com o pedido de Alvará (3 de Novembro) para se estabelecer com uma fábrica de cal no Bairro de Alcântara, utilizando carvão de pedra que mandava vir de Inglaterra, livre de direitos. Em Janeiro de 1758, por ordem da Secretaria de Estado a “Junta de Commercio adiantou outo contos de reiz” por conta da cal fornecida para as obras do Arsenal, das Alfândegas e Praça do Comércio.
     Em 1760, o negócio da cal deixa de ser proveitoso, e dos 16 fornos, apenas 3 continuam em laboração, sendo mesmo assim demasiada a sua produção pelo que, Guilherme, solícita, a D. José I, para baixar o preço do “moio” da cal e, em 15 de Julho de 1761, pede a El-Rei para que lhe ficasse com os fornos para pagamento da dívida que tinha ao Tesouro Real. Os bens da fábrica são, então, penhorados por diversas ocasiões por dívidas. “…tem posto na triste mizeria de vender os móveis da sua casa para sustentar a família que constando de trez irmãos e hua irmã orfaans não tem outro recurço se não no patrocínio e clemência de Vossa Magestade…”
     Em 1764 está inteiramente arruinado devido ao insucesso da sua fábrica de cal. Em 25 de Junho, a Junta mandou socorrê-lo por conta da cal que ia fornecendo. Mas, a 7 de Julho de 1767 foi-lhe, ainda, concedida a prorrogação, por mais 20 anos, da concessão da cal.
     Nos princípios de 1769 Guilherme Stephens adquire a sua primeira fábrica, uma indústria de vidros que, até então, pertencia a John Beare, e que estava localizada na Marinha Grande. Reinaugurada a 7 de Julho daquele ano, logo se começou a fazer sentir a sua forte actividade, aumentando as suas instalações, empregando mais operários e dotando-a com os mais aperfeiçoados maquinismos da época. O Marquês de Pombal, reconhecendo o seu valor, protegeu-o, como óptimo auxiliar na grande empresa de regeneração industrial do País, e concedeu-lhe um empréstimo de 32 contos de réis, sem juros nem limite temporal de pagamento, podendo fazer os pagamentos parciais em cal para obras públicos, a partir dos fornos que ainda possuía em Alcântara. D. José I deu-lhe permissão para gastar a lenha do Pinhal de Leiria, que lhe fosse precisa para a fábrica, durante quinze anos, privilégio que se tornou depois permanente, segundo alvará de 7-VII-1769. Em 1776 o rei declarava, numa nova provisão, que a fábrica ficava sob a imediata protecção do rei, como útil ao bem público, e ao dos pinhais. Esta concessão baseava-se na ideia de que, sendo bem feito e conscienciosamente dirigido, o corte das lenhas, não prejudicava a floresta, antes pelo contrário, limpava os seus ramos secos, que eram os que se permitia cortar.
     Stephens conseguiu, assim, ressuscitar o negócio da cal e desenvolver a manufactura do vidro. Os lucros deste negócio permitiram -lhe construir uma casa apalaçada na Marinha Grande.
Além de promover o desenvolvimento manufactureiro da região, elaborou um programa de assistência social na Marinha Grande. Abriu escolas, organizou um fundo de socorro a doença e um sistema de pensões, fechou as tabernas, introduziu actividades culturais, reorganizou o suprimento de alimentos, e investiu significativamente na evolução da agricultura. Ele acompanhou com interesse os regimes de Thomas Coke de Holkham Hall e transformou a produtividade agrícola na região.
     Apesar de ter sido chegado a Marquês de Pombal, D. Maria I aumentou-lhe os seus privilégios, fazendo mesmo duas visitas reais à Marinha Grande. Em 1792, o príncipe João assumiu as rédeas do poder, confirmando os privilégios conferidos por sua mãe.
     Em 1803 Stephens faleceu na casa da família em Lisboa, deixando a fábrica de vidro para seu irmão, John James Stephens. Com a morte de John James a fábrica de vidro foi cedido ao Governo Português.






http://en.wikipedia.org/wiki/William_Stephens_(glassmaker)
pt.wikipedia.org/wiki/Guilherme_Stephens

sábado, 29 de janeiro de 2011

A Real Fábrica de Vidros da Marinha Grande




Real Fábrica de Vidros da Marinha Grande], ca. 1865?]

SILVA, Francisco Augusto Nogueira da, 1830-1868
[Real Fábrica de Vidros da Marinha Grande] [Visual gráfico / Nogueira da Silva ; [grav.] Alberto. - [S.l. : s.n., ca. 1865?]. - 1 gravura : madeira, p&b. - Data provável baseada no período de actividade dos autores. - Dim. da comp.: 7,5x25,1 cm (Biblioteca Nacional)

A Real Fábrica de Vidros da Marinha Grande surge na sequência do encerramento da manufactura de Coina. A falta de combustíveis nesta região levou John Beare, seu administrador na altura, a transferir, em 1748, a tecnologia de Coina para a Marinha Grande, dada a abundância de matérias-primas, a areia, e de carburante nesta região, a lenha do Pinhal do Rei.
No dicionário geográfico, um manuscrito de 1758 é referido que “ há dentro desta vila e freguesia de Coina uma fábrica real que foy de vidro, a qual se acha damnificada e sem exercício há dês anos a esta parte por se mudar a mesma para o lugar da Marinha, termo da cidade de Leyria, e por este dezamparo se lhe perdem as madeiras que sam excellentes”.[1]
John Beare terá tido dificuldades em manter a unidade manufactureira em laboração. Em 1762, num relatório datado de 9 de Setembro, são descritos todos os problemas resultantes da instalação da Real Fábrica na Marinha.
Nesse relatório é referido uma Resolução Real de 23 de Agosto de 1749 para que fosse extinta a Real Fábrica devido aos grandes estragos ocasionados no Pinhal. A fábrica é acusada de consumir a melhor madeira, numa época em que toda a madeira de boa qualidade era enviada para a Ribeira das Naus, em Lisboa, para ser utilizada na construção naval. Além disso é acusada de ser responsável pela subida do preço pago aos carreiros. Estes preferem trabalhar para a Fábrica por um salário certo do que para o Estado.
Não conseguimos saber qual a data de encerramento da fábrica de Beare. No entanto, pensamos que em 1762 ainda se encontrava a laborar.
Em 1769 a administração da Fábrica é pertença de Stephens. Num documento dos Juízes do Officio de Vidraceiro é referido que apenas é permitido a Stephens “… a venda do dito vidro attacado, como sempre executara o seu antecessor Duarte Campeão”, pelo que é provável que depois de Beare, a Fábrica tenha tido outro(s) administradores .[2]
De facto, foi no ano de 1769 que o rei D. José I, por iniciativa do ministro Marquês de Pombal, chamou à corte o industrial inglês Guilherme Stephens. Nesse mesmo ano a família Stephens instalava-se na Marinha Grande e iniciava a construção da Real Fábrica de Vidros, segundo projecto do próprio Guilherme Stephens. Foi no ano de 1770 que com a colaboração de operários vidreiros vindos de Génova e alguns portugueses, se iniciou a produção de vidro de embalagem e vidraça.
         Marquês de Pombal concedeu-lhe um “ empréstimo de 32 contos de réis, sem juros nem limite de tempo, podendo fazer os pagamentos parciais em cal para obras do Estado, dos fornos que possuía em Alcântara”[3] D. José deu-lhe permissão para “gastar toda a lenha do pinhal do estado, que lhe fosse precisa para a fábrica, durante 15 anos, privilégio que se tornou, depois, permanente, segundo alvará de 7-VII-1769”[4]. Mais tarde, declarou que a fábrica ficava sob protecção real, sendo considerada como útil ao bem público e ao dos pinhais.
         A actividade de Guilherme Stephens repercutiu-se na formação dos empregados, na criação e manutenção de certas estruturas que foram essenciais ao desenvolvimento da Marinha Grande, principalmente vias de comunicação, tendo tido, também, um papel importante no desenvolvimento agrícola. A Fábrica funcionou como uma “escola”, “permitindo aperfeiçoar e consolidar um saber-fazer que, nessa segunda fase (1889-1930), já constituía um forte atractivo para a instalação de novas unidades vidreiras”[5]. Já em 1776 numa reclamação dirigida à Rainha D. Maria I, Guilherme Stephens se queixa da concorrência que lhe é feita pelos alemães que têm lojas de vidro na cidade de Lisboa e afirma que “Os lapidários e floristas do vidro nacionais, que foram ensinados na Fábrica, me certificam que podem lapidar e abrir flores em quanto vidro desta qualidade o Reino precisar; pelo que (…)seria útil proibir-se o despacho, na Alfândega, de todo o vidro que vier de fora do Reino, lapidado ou com flores, exceptuando-se os espelhos e lustros, para a manufactura dos quais a Fábrica ainda não tem oficiais capazes”.[6]
         A Fábrica marinhense vai procurar dificultar a saída dos vidreiros que habilitou, recorrendo ao poder central para que este tome medidas. José Amado Mendes (1993) cita o provedor da comarca de Leiria que, em 1812, declara:”O administrador da Fábrica dos Vidros, situada na Marinha Grande (…) exige de mim, juiz conservador dela, providências prontas contra a ruína que se lhe vai seguir, da deserção que da mesma fazem operários, que se retiram para algumas das semelhantes fábricas edificadas em Lisboa, em virtude de aliciações que por parte destas lhes são feitas (…)”. Nos finais do XIX continuava a ver-se ameaçada pela concorrência quanto à mão-de-obra, agora pelas fábricas instaladas na própria Marinha Grande.
         Após a morte de Guilherme Sephens a fábrica passou a ser administrada pelo seu irmão, João Diogo, que, apesar de algumas dificuldades, nomeadamente durante as invasões francesas, manteve um extraordinário desenvolvimento e progresso. Em 1826, João Diogo faleceu deixou em testamento a Fábrica à “Nação Portuguesa”.
         Demoraria cerca de dois anos até que o governo decidisse que, não tendo capacidade para administrar a Fábrica, iria abrir concurso para a sua exploração. Entre 1827 e 1919 a Fábrica conheceu vários arrendatários e tempos de prosperidade, realizando grandes projectos que desenvolveram tecnologicamente a Fábrica, produzindo vidro de grande qualidade, e períodos de grandes dificuldades, chegando mesmo a encerrar e os trabalhadores terem de procurar emprego na construção de estradas ou limpezas do pinhal.
         Em 1919 o Governo decide iniciar a sua exploração através de Comissões Administrativas. Destaca-se o período (1928-1966) em que a administração esteve a cargo do Engenheiro Acácio Calazans Duarte. Além do grande desenvolvimento tecnológico que deu à Fábrica, passou a ser obrigatório a formação dos aprendizes dos sectores de decoração, pelo menos em desenho e a frequência da escola nocturna da Fábrica, pelos menores analfabetos que ali trabalhavam. 
         A partir de 1954 um novo regulamento reformula a Fábrica, transformando-a num centro de desenvolvimento da indústria vidreira. Passou a designar-se Fábrica Escola Irmãos Stephens. Fabricava cristalaria de qualidade, desenvolveu a vertente artística do vidro, tendo contado com algumas parcerias, entre elas, com a Escola Nacional de Belas Artes. Em 1957 passou a ser superintendida pelo Instituto Nacional de Investigação e em 1977 passaria a Empresa Pública, conhecendo várias administrações até ao seu encerramento em 1992. Em 1993 foi adquirida pelo dinamarquês Jorgen Mortensen e reactivada. Actualmente já não de encontra em laboração.








       Pátio da Fábrica-Escola Irmãos Stephens (FEIS) – Ao fundo o palacete que foi habitado pelos Stephens. À Direita, o edifício dedicado à administração (construções do século XVIII).

Jéssica e Ana Agapito – alunas do 11º ano


[1] http://grandemarinha.blogspot.
[2] Idem
[3] http://visitasvirtuais.orelhas.pt/museuVidro/
[4] Idem
[5] José M. Amado Mendes (1993).  A História da Marinha Grande-Introdução e Perspectivas,  Câmara Municipal da Marinha Grande.
[6] Idem