quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Património cisterciense. Os Moinhos do Mosteiro de Alcobaça



            A difusão do engenho de água teve nos cistercienses parte interessada. Os “monges agrónomos” souberam, de facto, aproveitar o motor hidráulico e explorar os seus usos, aplicando-o nas suas granjas na moagem dos cereais, mas também para derreter a azeitona, na moenda de casca para curtumes, para fabricar a mostarda, em pisões e fulões, na serração de madeiras, nas ferrarias.
            As unidades de moagem hidráulica afectas aos domínios senhoriais destacam-se pela localização, tipo de estrutura e pelo número de “engenhos correntes e moentes”. De preferência, tomam assentamento nos rios de caudal permanente, escolhendo, estrategicamente, as quedas de água para ampliar a força motriz. São servidas por um açude de pedra que não só aprovisiona a água como constitui uma guarda contra cheias. Os imóveis são de pedra crua, com ou sem reboco, e a cobertura de telha. Raramente dispõem de menos de três pedras.
            Para moer diariamente o grão contava-se com a energia das águas e dos ventos. No território dos coutos, os engenhos tocados a água, (falamos dos moinhos de rodízio e azenhas), tomavam a parte de leão na nobre tarefa de reduzir o cereal a farinha.     Os moinhos de vento assumiam uma posição secundária, cabendo-lhes, sobretudo, o papel de substitutos das pedras que o estio, ao fragilizar as correntes, inibia para a moenda.
Era no rio Alcoa, nomeadamente entre a nascente e as quedas de água da Fervença, que estavam instaladas as principais casas de moinhos do Mosteiro. A saber, o conjunto da granja de Chiqueda com seu lagar de azeite e moinho (mais tarde conhecido por moinho Constitucional), depois da ponte de pedra, a jusante dos olhos de água em Chiqueda de Cima; o moinho das Freiras de Cós, junto à ponte das Freiras em Chiqueda de Baixo; o moinho do Mosteiro ou da Cerca de Dentro; o moinho da Praça, junto à ponte da Praça; e, finalmente, o complexo da Fervença (Maiorga) com os seus três moinhos e lagar de azeite.
Em média, estes moinhos dispunham de três a quatro casais de mós (quando o número é par, vemos duas alveiras ou trigueiras e outras duas segundeiras para derreter o milho, o centeio e, por vezes, também a cevada), com a excepção notável do moinho da Praça que revolucionava oito pedras.
Com a extinção da Ordem e a venda dos bens em hasta pública verifica-se a transferência destas unidades de produção para as mãos de alguns notáveis locais. De entre os novos proprietários sobressai Bernardo Pereira de Sousa que adquire os conjuntos de Chiqueda e da Fervença, o que lhe concede uma posição dominante na moagem de cereais e produção de azeite.
Assiste-se a uma tendência para reformar as unidades de maior capacidade. Os investimentos canalizam-se quer para obras nos açudes e reforço dos engenhos de rodízio (de uma a duas pedras), quer para a substituição integral do aparelho motor, transformando o moinho de água numa azenha. A par deste fenómeno dá-se a democratização da moagem, multiplicando os engenhos no viso dos montes e no leito das ribeiras e concedendo por fim ao moleiro o estatuto de proprietário.
            António Valério Maduro

Património Cisterciense. Os Lagares de Azeite do Mosteiro de Alcobaça



Para desfazer a azeitona das propriedades monásticas, do direito do quinto e da dízima, assim como todos os frutos das comunidades camponesa, os cistercienses mandaram assentar uma cadeia de lagares, mais ou menos reforçada consoante a densidade do povoamento desta fruteira. Ao contrário do que sucedia com os sistemas de moagem, os lagares de azeite eram explorados directamente pelo instituto monástico. O mundo camponês era o principal atingido pela manutenção do regime de monopólio. José de Abreu Chichorro na sua “Memória Económica e Política da Província da Estremadura” imputava os males do azeite a este exclusivo dos donatários. 
A lagaragem tinha início no mês de Dezembro. Nos anos de produção mesquinha a lavra do azeite durava entre mês e meio a dois meses, contra três a quatro meses e meio em épocas de abastança.
Estrategicamente, as “fábricas de azeite” instalavam-se à beira dos cursos de água, acoplando-se aos engenhos de farinação, pisões e outras indústrias. Por regra, os moleiros viam ser reduzido o quantitativo da renda, dado os moinhos de azeite sonegarem água às pedras de fazer pão. Mas a inconstância dos cursos de água que atravessavam o território dos coutos obrigava a que a maior parte das unidades de motor hidráulico estivesse, igualmente, apetrechada de moinhos tocados a sangue (caso do lagar das Antas, da Laje, da Granja de Chiqueda). Parte dos lagares que estavam adstritos ao olival do pé da Serra dos Candeeiros apenas podiam contar com o gado de canga para derreter a azeitona (tal era o caso do lagar da Cerca, da Quinta da Granja, de Val Ventos, da Lagoa Ereira). As maiores instalações estavam apetrechadas com 8 prensas de vara e 2 moinhos, estão entre elas o lagar da Cerca (Ataíja de Cima), o lagar da Lagoa Ereira (Casal da Lagoa, Turquel), e o lagar da Fervença (complexo de transformação que englobava, para além do lagar, dois moinhos de rodízio e uma azenha).
Casa do Monge Lagareiro - Ataíja de Cima

O espírito de modernidade tecnológica que movia os cistercienses verifica-se nas instalações de lagar e casa do monge lagareiro da Ataíja de Cima (que laborava as safras do olival do Santíssimo Sacramento das Ataíjas). Neste imóvel estabelecia-se a separação entre a área dedicada aos moinhos e às prensas. Este lagar possuía ainda palheiros e estábulos para os animais que serviam nos engenhos e carreavam a azeitona. Mas estas condições ideais para a época eram, de facto, uma excepção. A regra que prevaleceu ao longo do século XIX, na região e no país, juntava no mesmo espaço prensas e moinhos, com os inconvenientes da promiscuidade do gado junto às tulhas da azeitona e às pias e talhas de arrecadar o azeite.
Para a laboração das instalações de maior capacidade contava-se em permanência com cinco a seis lagareiros. Ao mestre cumpria a orientação e coordenação dos afazeres da moenda e prensagem. Ele próprio se encarregava das funções reputadas de maior exigência e responsabilidade, como o assentamento, sangria e estrangulamento das tarefas, de arrancar o azeite e fazer as maquias (a dízima do azeite laborado), de precisar a moedura de partes (azeitona do rabisco e dos pequenos proprietários), de vigiar o enceiramento, caldas e prensagem… Já os moedores, como o seu nome indica, serviam o moinho, montavam o enceiradoiro, assistiam o fogo da caldeira, entre tantas outras actividades.
Com a extinção das ordens religiosas masculinas, estes meios de transformação da colecta dos olivais (à semelhança do que já vimos com os sistemas de moagem) são, estrategicamente, adquiridos por alguns influentes locais. O notável Bernardo Pereira de Sousa concentra nas suas mãos o lagar da Quinta de Chiqueda, o lagar da Fervença (Maiorga) e o lagar das Antas (Évora de Alcobaça). As três unidades dispunham de motor hidráulico e contavam, no seu total, com 22 prensas de vara, cerca de 30% da capacidade extractiva dos lagares do Mosteiro
Autor: António Maduro

quarta-feira, 6 de julho de 2011

O Conjunto de Fornos de Cal de Pataias

             A indústria artesanal da cal nos antigos Coutos de Alcobaça concentrava-se na beirada da Serra dos Candeeiros. É neste espaço que, no século XVIII, encontramos a maioria das referências aos fornos do Mosteiro.
            Por meados do século XIX, a falta de matos utilizados como combustível na cozedura da pedra, levou ao encerramento dos fornos de cal parda ou magra da charneca serrana, propiciando a transferência desta actividade para Pataias.
A colonização do espaço, incentivado pela plantação de vastas áreas de olival nas faldas desta Serra, ao longo do século XVIII, conduziu a arroteias extensivas da mata primitiva. Também a vaga de tomadias populares verificadas nas terras da encosta, durante o século XIX e a primeira metade do século XX, estacando tanchoeiras entre as penas e fragas, contribuíram para a supressão do coberto vegetal de carvalhos, carrascos e medronheiros... Aliás, o cronista do Mosteiro, Frei Manuel de Figueiredo (século XVIII), já alertava para o prejuízo que a ocupação excessiva do solo acabava por trazer à agricultura, ao escassearem terras de pasto e matos. De facto, a  acção combinada da pastorícia e do corte de matos para a arte agrícola e combustível condenaram a sobrevivência deste ofício neste espaço geográfico.
Segundo os registos de contribuição industrial de 1881, Pataias era o único centro de produção de cal do Concelho, com treze fornos em funcionamento. Esta localidade possui veios de pedra de excelente qualidade, matos em abundância nas terras de pinhal, factores que não só justificam a instalação da indústria, como explicam o seu desenvolvimento ao longo das primeiras três décadas do século XX. A passagem do caminho-de-ferro (linha do Oeste) em Pataias, no ano de 1888, e a posterior construção do apeadeiro contribuíram para a expansão desta actividade. Era este transporte que assegurava o abastecimento de cal à Siderurgia Nacional, indispensável na produção do aço.
 Em 1933 estão arrolados 33 fornos em actividade. O número de fornos em laboração veio gradualmente diminuir. Em 1942 encontramos 25 fornos, oito anos volvidos apenas 17 mantêm este ofício tradicional. Já no ano de 1982 só 5 fornos ainda trabalham, chegando o seu ocaso no ano de 1995, quando o senhor António Grilo coze a última fornada. As famílias que ao longo de mais de um século tomaram nas suas mãos este ofício sazonal foram forçadas, paulatinamente, a largar este mester.
Muitas são as explicações para o abandono desta arte milenar. Em primeiro lugar, o carácter artesanal deste ofício que pouco ou nada se modernizou. Por outro lado, a falta de mão-de-obra (este ofício beneficiava da força de trabalho das proles numerosas, assim como de alguns tempos mortos do calendário agrícola), motivada pela instalação das indústrias cimenteiras, vidreiras e cerâmicas na região, que permitiram um pleno emprego e estimularam a deslocação de activos da agricultura para a indústria. A dureza das condições de trabalho (18 horas seguidas a alimentar o forno com 6 magras horas de descanso num canto do barracão) não constituía aliciante para os mais novos. As exigências de jornas mais elevadas vieram a tornar-se verdadeiramente incompatíveis com a capacidade produtiva e a rentabilidade das fornadas. Por outro lado, as empresas que adquiriam grandes proporções de cal, passaram a instalar fornos eléctricos destinados à sua produção.
Actualmente sobrevivem no seio do parque florestal 29 fornos de cal desactivados, conjunto que, pelo bom estado geral de conservação, merecia uma rápida intervenção que dignificasse e preservasse este espaço de produção e memória.
Com o encerramento dos fornos, a regular limpeza dos pinhais deixou de ser feita, pelo que o culminar desta actividade teve um impacto negativo nas culturas florestais e sua exploração pela mais fácil propagação de fogos.

***
A tecnologia de produção da cal não terá conhecido grandes modificações do período romano aos nossos dias.
Estes fornos de estrutura barriloíde arvoravam as suas paredes com tijolos ligados por um barro areento. O seu topo aberto apresenta-se ligeiramente estrangulado em relação à base afundada no terreno. A altura destes fornos situa-se entre os 4,5 m e os 6m, a largura da base entre os 3,70 m e os 4,60 m e o topo entre 3,15m e 4,10 m. Para resistir à pressão da cozedura os fornos apresentam-se parcialmente aterrados. Com esta mesma finalidade a parede é travada por cima do portal com três troncos de pinheiro.
A laboração destes fornos é de tipo descontínuo ou intermitente, necessitando de um abastecimento regular de mato à caldeira até finalizar a cozedura, ao contrário do que sucede nos fornos de laboração contínua ou permanente em que as camadas de lenha ou carvão alternam com as camadas de pedra. Como combustível utilizava-se preferencialmente o mato, daí denominarem estes fornos de fornos “de cal a mato”. Para uma fornada eram necessários entre 80 a 100 carradas de mato. Com a adaptação aos carros de bois de eixos de ferro e rodados de camioneta, por volta dos anos 50, reduziram-se os fretes a 50 ou 60 carradas. Os carros podiam agora vir mais carregados sem o risco de se atolarem nas areias do pinhal. Com a substituição da tracção animal pela tracção mecânica, apenas 10 fretes de camioneta eram suficientes.
A partir da década de 40 recorre-se, igualmente, ao “motano” (molhos de braça de pinho). Graças ao “motano” os fornos começaram a laborar durante o Inverno. Cada fornada consumia entre 150 a 200 talhas de “motano”, equivalendo 1 talha a 60 molhos. Posteriormente utiliza-se a serradura e mesmo pneus velhos para alimentar a caldeira. A temperatura em que se processava a cozedura da pedra é denominada de rubro cerejo, situando-se entre os 800º e os 1000º.
O “empedre” do forno consumia aproximadamente 150 carradas de pedra, extraída pelos cabouqueiros. Os fornos, por uma questão de economia, localizam-se nas imediações das áreas de extracção. Cada fornada levava em média três semanas. Uma para enfornar (levantar o “empedre”), outra para cozer a pedra e outra para a retirar.
Principiava-se pelo “empedre”, assentando as “armadeiras” sobre o peal que rodeava a caldeira. Quando o “empedre” atingia a altura do portal as pedras começavam a ser descarregadas pela abertura superior. Sobre as “armadeiras”  (pedras que chegavam a atingir 1 m de comprimento) destinadas a estruturar a abóbada, depositavam-se as “carregadouras” (pedra miúda). O “capelo”, final do “empedre”, excedia em cerca de 1,50 m o topo do forno.
A combustão rápida do mato exigia ao forneiro carregar constantemente a caldeira por intermédio da boca do forno. Quando a cinza se acumulava, tornando o fogo mortiço, o forneiro, com o “varredoiro” (pinheiro) ao ombro, remexia o brasido. Com outro pinheiro de menor porte, o “acabador”, retirava-se a cinza que se acumulava nos cantos. Finda esta tarefa, que durava cerca de meia-hora, podia-se, novamente, alimentar a fornalha, impedindo assim que a pedra pudesse encruar. A utilização de compressores prescindiu deste esgotante trabalho.
No final da cozedura, o “capelo” do “empedre” baixava cerca de meio-metro em relação ao topo do forno. Como nos refere o mestre Joaquim Ribeiro bastava olhar para a pedra para saber se ela estava convenientemente cozida. Era então chegada a altura de desenfornar a pedra, tarefa árdua dada a temperatura que o forno mantinha. Em média cada fornada rendia entre 50 a 55 toneladas de cal. Sabemos que antes da utilização do “motano” como combustível e do recurso ao transporte mecanizado das paveias de mato e da pedra das caboucas, os fornos não coziam mais do que três a quatro fornadas por ano, passando, posteriormente, a poder realizar mais de dez fornadas.
A cal era comercializada à boca do forno. Caso os compradores tardassem a pedra consumia-se, pois não existia nenhum espaço destinado ao armazenamento. Só a partir da década de 50 é que se edificam armazéns para guardar a cal, acondicionando-se esta em tulhas de tijolo, com uma capacidade de cerca três toneladas. Inicialmente em galeras, nos seirões e cangalhas dos burros e, mais tarde,  nas camionetas escoava-se a cal em pedra e em pó.
Nas feiras e nos mercados a vendedeira da cal marcava sempre presença. No tempo da Páscoa o costume de caiar a habitação e alguns cómodos (adega, casa das tulhas e pias, cisterna...) antes da visita do pároco, levava a um aumento da procura e logo à subida do preço deste produto. Este uso não tinha apenas um objectivo estético, cabendo à cal assegurar a impermeabilização dos imóveis, assim como os resguardar dos calores estivais. Ao matar a cal na pia acrescentava-se um fio de azeite, o que impedia não só que a cal sujasse os fatos domingueiros, como ajudava a conservar melhor as paredes.
A cal gorda de Pataias era procurada para o fabrico de argamassas, estuques, cal de caiar e para uma ampla utilização nas terras de cultura.

Texto: António Valério Maduro
Fotografias: Mariana Coutinho - 9º E

segunda-feira, 25 de abril de 2011

História de uma Seira

O FABRICO DE SEIRAS NO JUNCAL


1. BREVES CONSIDERAÇÕES HISTÓRICAS

Juncal é sinónimo de junqueiro, local onde há junco. De facto, ainda hoje é possível encontrar no Juncal zonas onde o junco cresce espontaneamente, em grande quantidade. Apesar disso, só após 1948 é que o fabrico artesanal de produtos com junco surgiu no Juncal. Até essa data essa actividade estava localizada na Castanheira. Existem informações que mostram que também se produziam artefactos em junco pelo menos no Ribatejo e Alentejo. Pelo contrário, não existem dados seguros acerca da data nem do modo de início da produção na Castanheira.
Até 1943/44, apenas se faziam carpetes, passadeiras e esteiras para a praia. Nessa data veio para a Castanheira uma família de Lisboa (os “Manecas”), de propósito para ensinar os produtores locais a fazer SEIRAS.
Passadeiras
Em 1948/49 Rafael Henriques Sousa, que já era produtor na Castanheira, mudou-se para o Juncal. Veio com a família e arrendou um espaço para habitação e outro para produção de Seiras, na Rua da Fonte (onde é hoje a casa de Francisco Pinheiro). A esposa Florinda da Conceição e a irmã Francisca (“Sica”), começaram entretanto a ensinar a técnica de tecer a outras mulheres, que se mostravam interessadas, por exemplo a D. Hortense e a D. Celeste Borges.
Passadeiras
       Esta actividade tornou-se num complemento económico para as famílias. Muitas raparigas logo que saíam da escola, com 10 ou 12 anos, iam aprender a tecer nos teares dos empresários. À medida que se iam casando, construíam o seu próprio tear, que instalavam num anexo às suas casas, permitindo-lhes mais facilmente conjugarem as actividades do tear com a vida doméstica.
Rafael Henriques Sousa controlava todo o processo produtivo de Seiras e Esteiras em junco, no Juncal. Assegurava todo o processo produtivo, desde a colheita do junco até à entrega do produto final, nunca vendendo à peça; comprava junco, em grandes quantidades, nos arredores de Santarém, onde chegou a ter pessoal dedicado exclusivamente à colheita de junco para a sua empresa; comprava as tintas de que necessitava em grandes quantidades, em armazenistas do Porto e também revendia, na região, e adquiria o fio de juta em grandes quantidades, na Fábrica de Torres Novas. Além disso, ainda, controlava as vendas, sem intermediários (quando necessário deslocava-se a outras regiões do país para fazer entregas de produtos).
Chegaram a existir, no Juncal, vários empresários. Rafael Tomás Morgado, mais conhecido por “sacristão”, dedicou-se a este negócio nos anos 50 e 60. Francisco Marcelino, durante os anos 60, só vendia à peça (malas e cantos, ainda por coser), Conceição Simões e Iria Machado desenvolveram esta actividade nos anos 80. Nos anos 90 assistiu-se à decadência da produção. O último empresário a produzir seiras foi Belmiro da Conceição Sousa, o qual encerrou a sua actividade cerca do ano 2000.



2. PROCESSO PRODUTIVO

Enumeram-se de seguida, as várias fases que eram necessário encadear até chegar ao produto final, a Seira:
 
•APANHAR O JUNCO           
•SECAR O JUNCO
•ATAR E CORTAR O JUNCO
•LAVAR O JUNCO
•COLOCAR NO POTE
•TINGIR O JUNCO
•URDIR O TEAR
•SAFIAR O TEAR
•TECER
•CORTAR O TEAR
•ATAR AS MALAS E OS CANTOS
•CORTAR AS PONTAS
•APARCEIRAR AS MALAS COM OS CANTOS
•COSER AS MALAS  AOS CANTOS
•COLOCAR AS ASAS


3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

           
O processo produtivo de artefactos em junco é excessivamente dispendioso, longo e exclusivamente manual. Enquanto objecto utilitário, a Seira foi substituída por produtos incomparavelmente mais baratos (sacos de plástico, por exemplo). Em 2010 a empresa “Pingo Doce Distribuição Alimentar, S.A.” modificou os seus sacos recicláveis, imprimindo excelentes fotos de seiras no seu exterior, criando a ideia de se estar em presença de verdadeiras seiras (e com um preço muitíssimo mais baixo).
Agora que a produção de seiras quase acabou, é curioso ver persistir a sua estética num contexto sócio-económico, cultural e tecnológico inteiramente diferente. Esta persistência surge como um verdadeiro desafio. Desperta-nos para a pergunta: que futuro para os produtos em junco, em especial as SEIRAS?
       A sobrevivência destes produtos poderá passar pela sua recriação e reposicionamento no mercado.

Autores do texto e fotografias:
Dr. Carlos Mendonça
Senhora Célia Gomes

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Apontamentos Históricos da Freguesia do Juncal

As feiras/ mercados

Nestas comunidades rurais que viviam em autarcia, produziam-se no entanto, alguns produtos excedentários que deveriam ser transaccionados para adquirir outros produtos que a comunidade local não produzia. Assim as feiras eram locais importantes para estas trocas. O local da feira situava-se fora do aglomerado urbano, porque a presença de animais para comerciar e de transporte deixavam grande quantidade de excrementos e maus cheiros que era preciso evitar na zona habitacional.
Estes excrementos, após o fim da feira eram aproveitados para estrumar as terras. Pertencia às crianças este trabalho. Munidos de um saco de serapilheira apanhavam para o mesmo o estrume.
Factor importante na definição do lugar da feira era a existência de água. Por isso. Situavam-se junto a barreiros e a lagoas. A água era indispensável para sedentar os animais que se dirigiam e encontravam durante várias horas na feira. Tratando-se de animais que se destinavam a comercializar, antes da feira os donos alimentavam-nos muito bem, a fim de apresentarem melhor aspecto, pelo que era normal terem sede.
Nas feiras eram transaccionados todos os tipos de animais, pelo que ela se apresentava organizada por sectores relacionados com cada espécie. Além dos animais comercializavam-se outros géneros de produtos agrícolas e em algumas produtos diversos destinados às várias necessidades diárias das pessoas.
Para além do aspecto comercial a feira era um encontro social. Mesmo alguns que não tendo qualquer produto para transaccionar não deixavam de ir à feira. No comércio de animais havia alguns homens que apenas assumiam a função de intermediários, não chegando a disponibilizar qualquer valor pecuniário. A sua presença no negócio apenas servia para pressionar o vendedor, o comprador ou ambos a fazer o negócio.
A feira realizava-se mensalmente e sempre no mesmo dia do mês, sendo geralmente conhecida pelo dia em que se realizava. Assim feira dos sete, dos vinte, dos catorze…
Nos mercados geralmente semanais vendiam-se géneros alimentares, peças de vestuário etc. Não se comercializavam animais de grande porte. Comercializavam-se animais de capoeira.
O surgimento de novas feiras em localidades que ainda as não possuíam, poderia arruinar e acabar a médio prazo com uma feira antiga. A passagem da feira mensal de São Mamede para quinzenal, ditou o fim da feira do Bajancão. Esta situação do fim de algumas feiras devido ao aparecimento de uma outra ou do crescimento de alguma já existente está relacionado principalmente com o aparecimento de meios de transporte motorizados.
Após a entrada de Portugal na União Europeia e fruto de rigorosa legislação a presença de animais nas feiras começou a ser dificultada e hoje praticamente não se vêem em tais locais, pelo que dando continuidade cultural à feira, ela continua a existir mas com outros produtos.
Além da venda nas feiras e mercados muitos produtos vendiam-se à porta. Havia, ao contrário de hoje, procura de produtos nestas aldeias.
Também havia senhoras que fazendo-se transportar em burros se dedicavam a comprar queijos e ovos nas aldeias e que iam vender às gentes das vilas próximas.

Professor Manuel Carvalho

Apontamentos Históricos da Freguesia do Juncal

Trabalhos colectivos e entreajuda

Além do trabalho colectivo, na recuperação de caminhos vicinais e públicos, na limpeza e conservação de Barreiros e lagoas, de acudir a um incêndio numa casa ou palheiro, (os incêndios florestais não aconteciam até à década de oitenta), há a registar a colaboração voluntária da vizinhança e de familiares em trabalhos agrícolas ou trabalhos relacionados com construções particulares. Ao falarmos em trabalhos colectivos, referimos também tarefas cuja realização por uma só pessoa levaria tanto tempo que a utilidade do trabalho acabaria por se perder por não ser possível satisfazer as exigências das condições de tempo ou do calendário agrícola, nem atender ao andamento ou ao estado das culturas agrícolas. De facto, este tipo de entreajuda designado nestas comunidades locais por “troca de trabalho” ou “andar a mercer”, ajustava-se às exigências dos trabalhos agrícolas sazonais, quando as culturas apresentam um grau de desenvolvimento que implica, muitas vezes, a necessidade de actuar de forma rápida e atempada. Assim, algumas mulheres, “trocavam” manhãs, tardes ou dias inteiros, unidas em esforço e em espírito de auxílio. Iam mondar as searas, ceifar as culturas forrageiras e ervas espontâneas, ceifar as searas de trigo e de aveia, vindimar, colher a azeitona. Havia ainda trabalhos que se faziam em grupo formado espontâneamente, quando se desconfiava que o tempo não estava seguro, e o vento, a formação repentina de nuvens carregadas, anunciavam uma trovoada. Rápidamente juntavam-se vizinhos para acautelar a aveia forrageira que estava a secar ao sol, protegendo-a da chuva, construindo, logo ali, medas. Também o trabalho de debulha de cereais e de malhar as leguminosas na eira eram objecto de frequente ajuda. Ainda descamisar, malhar e descarolar o milho, atraíam a vizinhança.
Trabalhos que necessitassem de muita gente, como a subida da telha para cobrir a estrutura de madeira dum telhado, eram planificados para um dia em que havia disponibilidade de muita gente, geralmente um Domingo. Após a conclusão do trabalho o dono da obra oferecia uma merenda aos colaboradores, onde não faltava abundância de vinho.
Já um trabalho agrícola realizado ao Domingo ou Dia Santo era considerado pecado e explicava-se às crianças que a mancha mais sombreada que se observa na lua cheia, representa um homem carregando um molho de silvas nas costas, castigo imposto por Deus, pelo facto de ter procedido à limpeza dum silvado num terreno ao Domingo.
Muitas vezes, o início do trabalho colectivo era anunciado com o lançamento dum foguete. A solidariedade não se verificava apenas no combate a um incêndio, na colaboração na colocação de um telhado, num trabalho agrícola, mas também quando acontecia um acidente.
Verificava-se sobretudo após o acidente. Contribuía-se sobretudo com tempo mas também com bens materiais e por vezes com dinheiro.
Também os casamentos exigiam a solidariedade da família e da vizinhança. Vários dias antes começava-se a preparar a boda. Homens preparavam o espaço, geralmente um barracão, preparavam mesas e bancos matavam as cabras, os coelhos e as galinhas, enquanto as mulheres emprestavam as loiças, os tachos e as panelas e providenciavam em tudo o que fosse necessário para a confecção dos alimentos, nomeadamente em amassar e cozer o pão e a broa, pelo que se utilizavam vários fornos .

Professor Manuel Carvalho